Imagine ter apenas 10 dias para voltar ao lugar de onde fugiu com a roupa do corpo. É essa a corrida contra o relógio que 65 moradores de Itajaí, em Santa Catarina, enfrentam agora. A Defesa Civil autorizou a retirada de pertences do Edifício Irajá, que afundou dramaticamente no último dia 15 de abril. Mas por que a pressa? E o que os engenheiros descobriram que torna cada minuto dentro do prédio um risco calculado?
A resposta está em um relatório preliminar que pinta um cenário aterrador: a estrutura está em estado crítico, inclinada e com o piso térreo afundado. Apesar de escorada no momento, os técnicos foram categóricos. Não há garantia de estabilidade permanente. Uma chuva mais forte ou qualquer vibração pode ser o estopim para um novo colapso. A autorização, portanto, é uma janela de oportunidade perigosa e fugaz.
Os 10 dias que separam o desespero do alívio
A operação é dividida em etapas e monitorada minuto a minuto. Nesta primeira semana, até 30 de abril, os moradores podem resgatar itens de menor porte: roupas, documentos preciosos, fotografias de família e outros objetos pessoais com valor afetivo inestimável. Para muitos, é a última chance de recuperar um pedaço de suas histórias.
Em uma segunda fase, será a vez dos móveis e itens maiores. A logística é complexa e qualquer sinal de alteração na estrutura fará com que a ação seja interrompida imediatamente. "A ação será interrompida imediatamente em caso de qualquer alteração na estrutura", alerta a Defesa Civil. O perigo é real e constante.
A descoberta inédita que explica o desastre
Mas o que realmente fez um prédio de quatro andares, construído em 1975, simplesmente ceder? O relatório aponta para uma hipótese técnica assustadora: o recalque das fundações. Em palavras simples, as estacas que sustentam o edifício no solo podem ter se degradado ou o terreno sob elas mudou, comprometendo toda a base estrutural.
E o pior pode não ter acabado. Na manhã do dia 16, após o desastre inicial, o prédio afundou mais 9 milímetros. Pode parecer pouco, mas é um sinal claro de que o solo ainda está em movimento. Os técnicos reforçam que a degradação pode continuar, numa incerteza que paira sobre o destino final do imóvel.
O veredicto final: demolição é a única saída?
Sem um laudo conclusivo, a Defesa Civil já projeta o fim do Edifício Irajá. A avaliação é de que o estado é tão crítico e o custo de uma eventual recuperação tão alto, que a demolição se torna o caminho mais provável. O prédio que era lar para 16 famílias deve virar um terreno vazio.
O episódio, que felizmente causou apenas ferimentos leves em três pessoas e levou quatro a um abrigo municipal, deixou uma lição de vulnerabilidade. A maioria dos residentes foi acolhida por vizinhos, mostrando solidariedade no caos. Até um animal de estimação foi resgatado pelos bombeiros no dia seguinte. Agora, a comunidade observa, enquanto seus antigos vizinhos encaram uma última e arriscada missão dentro do que um dia chamaram de lar, tentando salvar do concreto o que resta de suas memórias.