O paulistano respira um pouco melhor em 2026. Mas ainda não respira bem. E, segundo o mais recente relatório do Instituto do Capitalismo Humanista (iCapH), a cidade está exatamente no mesmo lugar onde estava há quatro anos. Como se o tempo tivesse passado, mas a economia real, para quem vive aqui, não.
O índice, que virou lei municipal em 2020 e serve de bússola para políticas públicas em São Paulo, subiu 12% em relação a 2025 – foi de 4.517 para 5.041 pontos. Mas o problema é o que esse número não conta: pela oitava vez consecutiva, a cidade não conseguiu cruzar a barreira dos 6.000 pontos que a tiraria da zona "Regular".
O pico que durou apenas um suspiro
Em 2023, o índice atingiu seu melhor momento histórico: 5.525 pontos. Era o otimismo pós-pandemia, a sensação de que o pior havia ficado para trás. Mas o que veio depois foi uma queda livre: 4.517 em 2025, e agora uma recuperação que, para os especialistas, tem mais cara de alívio conjuntural do que de transformação estrutural.
"A recuperação de 2026 é bem-vinda e real. Mas colocar 5.041 pontos em perspectiva histórica significa que a cidade está exatamente no mesmo patamar onde estava em 2022", diz o relatório. Quatro anos de ciclo de queda e retorno ao ponto de partida. Isso não é crise. É estagnação.
O fator que nunca saiu do vermelho
Dos doze fatores que compõem o iCapH, um deles é uma ferida aberta que sangra há oito anos: a Redução das Desigualdades Regionais e Sociais. Com apenas 288 pontos, é o pior resultado entre todos os critérios, classificado como "Ruim". E o mais grave: desde 2019, nunca saiu da zona vermelha. O melhor resultado? 328 pontos, em 2023.
Enquanto isso, a Propriedade Privada registrou 316 pontos – o segundo pior da série histórica, superando apenas os 250 pontos de 2025. Mais de 54% dos entrevistados avaliam a garantia à propriedade privada como "Ruim" ou "Péssima". Para o capitalismo humanista, isso é um terremoto: quando a população não percebe esse direito como garantido, não há recuperação que tape o buraco.
O dado que revela a crise de confiança
Talvez o número mais chocante do relatório não esteja na pontuação principal, mas no grau de confiança institucional. A pergunta foi direta: em quem o paulistano confia para conquistar o bem-estar econômico?
A resposta é devastadora: empresas e empresários são os mais bem avaliados, mas com apenas 33,4% de confiança. Já governo e bancos empatam no descrédito: 70,4% de não confiança cada.
Não é ceticismo passageiro. É uma crise de legitimidade que permeia todos os pilares institucionais da vida econômica. E a desconfiança não é um dado sentimental: entre os que confiam no governo, 42% avaliam o bem-estar como ótimo ou bom. Entre os que não confiam, esse número despenca para 18,3%.
O que isso significa para o futuro?
O capitalismo humanista não é ideologia avulsa. Ele é a leitura do artigo 170 da Constituição Federal, que estabelece um modelo econômico que conjuga livre iniciativa com valorização do trabalho, propriedade privada com função social. O iCapH foi criado para medir se essa promessa está se realizando na vida das pessoas.
O que a edição de 2026 revela é que São Paulo, a maior economia do hemisfério sul, ainda não começou a realizar essa promessa. A cidade chegou ao mesmo lugar de onde partiu quatro anos atrás. E, em termos de bem-estar econômico, estagnação é uma crise com outro nome.
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