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Você já leu um relatório corporativo ou um comunicado de imprensa e sentiu que algo estava... estranho? Que a linguagem parecia um pouco robótica, repetitiva e artificial? A resposta pode estar em uma única e simples construção de frase que se tornou a assinatura secreta da inteligência artificial.

Um relatório do Barron's, analisando o banco de dados da empresa de inteligência de mercado AlphaSense, revelou um fenômeno chocante: o uso da frase "Não é só [isso] — é [aquilo]" mais do que quadruplicou em documentos oficiais entre 2023 e 2025. De cerca de 50 menções, o número saltou para mais de 200.

Por que essa frase virou o "santo graal" dos textos de IA?

A explicação é tão reveladora quanto preocupante. As ferramentas de IA generativa, como o ChatGPT, foram treinadas com enormes quantidades de texto da internet — incluindo, é claro, muitos textos escritos por humanos que adoram esse recurso de estilo para criar contraste e ênfase.

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"Não é só coincidência que as ferramentas de IA generativa usam muito essa frase — é um reflexo da nossa escrita, na qual essas ferramentas foram treinadas", aponta Amanda Silberling, repórter sênior da TechCrunch que cobriu o caso. E ela vai além: o treinamento foi feito, em muitos casos, sem a permissão dos autores originais.

A epidemia silenciosa nos bastidores do poder

O problema não está apenas em blogs ou textos casuais. A varredura do AlphaSense focou em comunicados à imprensa, relatórios de resultados (earnings reports) e documentos governamentais — o coração da comunicação oficial de empresas e governos.

Isso significa que decisões de investidores, a percepção do mercado sobre uma empresa e até políticas públicas podem estar sendo comunicadas através de um filtro linguístico padronizado por algoritmos. A linguagem única e a voz autêntica estão sendo soterradas por um padrão fácil de detectar.

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O traço definitivo: a busca pelo "humanóide" perfeito

O fenheiro vai além da famosa frase. Especialistas começam a ver outros padrões como "sinais reveladores" (tells) de texto gerado por IA. O uso excessivo do travessão (em-dash) — justamente o que aparece na construção "não é só isso — é aquilo" — é outro forte candidato.

O que parece uma curiosidade linguística é, na verdade, um sintoma de uma dependência massiva. "Isso não é só uma tendência engraçada — é simbólico de como essas empresas se tornaram dependentes da IA", conclui a análise.

A próxima vez que você se deparar com um texto oficial que soe incrivelmente polido, repetitivo e cheio de contrastes usando travessão, faça uma pausa. Pode não ser apenas um estilo de escrita cuidadoso. Pode ser a prova de que um algoritmo está ditando as regras da nossa comunicação, um parágrafo de cada vez.