A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã está causando uma grave crise no abastecimento de combustível de aviação, levando companhias aéreas em todo o mundo a cancelarem voos e aterrissarem aeronaves. O conflito interrompeu cadeias de suprimentos, deixando petróleo retido em instalações de armazenamento no Oriente Médio e fazendo o preço do barril de Brent ultrapassar US$ 100.
O querosene de aviação, no entanto, subiu ainda mais rápido, com seu preço dobrando para quase US$ 200 o barril. Para países que não produzem o combustível ou têm estoques limitados, a situação se torna crítica à medida que a guerra se prolonga.
Alerta de escassez iminente na Europa
Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (IEA), fez um alerta grave à Associated Press na quinta-feira. "Na Europa, temos talvez seis semanas ou mais de querosene de aviação sobrando", afirmou. Ele acrescentou que, se o Estreito de Ormuz não for reaberto, haverá cancelamentos de voos devido à falta de combustível.
June Goh, analista sênior de mercado de petróleo da Sparta Commodities, explicou em uma publicação no X que o querosene de aviação requer armazenamento especializado, o que significa que menos é estocado em comparação com outros produtos, como gasolina. "A Europa está enfrentando escassez iminente de suprimentos de querosene de aviação. Preparem-se", escreveu ela.
Companhias aéreas já sentem o impacto
Ryanair, a maior companhia aérea da Europa, está considerando reduzir rotas. Seu CEO, Michael O'Leary, disse à Sky News que o suprimento de combustível da empresa pode estar em risco se a guerra continuar. "Não esperamos nenhuma interrupção até o início de maio, mas se a guerra continuar, corremos o risco de interrupções no fornecimento na Europa em maio e junho", declarou.
KLM anunciou em 17 de abril o cancelamento de 80 voos de ida e volta do Aeroporto de Schiphol, em Amsterdã, sua base principal. A empresa afirmou que essas rotas não eram mais "financeiramente viáveis para operar" devido aos custos crescentes do querosene, mas esclareceu que não há escassez do produto.
No mesmo dia, a alemã Lufthansa informou que está aposentando dezenas de aeronaves antes do previsto, principalmente jatos Canadair CRJ, devido aos preços do combustível e a disputas trabalhistas. A suíça Edelweiss Air cancelou voos para Denver e Seattle (EUA) e reduziu a frequência para Las Vegas.
Um porta-voz da Scandinavian Airlines (SAS) disse que a empresa cortará cerca de 1.000 voos em abril, a maioria em rotas de curta distância na região nórdica.
Cortes se espalham pela Ásia e Pacífico
Na Ásia, a Vietnam Airlines suspendeu sete rotas domésticas a partir de 1º de abril e planeja reduzir o volume de voos em 10% a 20% ao mês no próximo trimestre se os preços atingirem US$ 160 a US$ 200 o barril. Outras companhias locais, como Vietjet Air e Bamboo Airways, também farão cortes.
A AirAsia cortou 10% de seus voos e aumentou as tarifas. Em coletiva de imprensa em 6 de abril, o CEO Bo Lingam disse que a sobretaxa de combustível subiu até 20%, e os preços gerais das passagens aumentaram de 30% a 40%. Ele descreveu a alta do querosene de US$ 90 para US$ 200 o barril como o desafio mais sério da empresa.
A Air New Zealand anunciou que cortará cerca de 5% de seus voos, ou aproximadamente 1.100, no início de maio, consolidando principalmente voos em horários de baixa demanda.
Reação das gigantes americanas
Nos Estados Unidos, o CEO da United Airlines, Scott Kirby, informou em memorando à equipe em março que a empresa cortaria voos nos próximos dois trimestres. "No curto prazo, isso significa podar taticamente voos que estão temporariamente não lucrativos diante dos altos preços do petróleo", escreveu. Kirby destacou que, se os preços se mantivessem no patamar atual, significaria um custo extra de US$ 11 bilhões anuais apenas com combustível, valor superior ao lucro recorde de menos de US$ 5 bilhões da empresa.
A Delta Air Lines, que possui uma refinaria na Pensilvânia, não anunciou cortes oficiais devido aos preços do combustível. "Não vai cobrir a diferença completamente, mas nos dá uma proteção bastante significativa", disse o CEO Ed Bastian em conferência da JP Morgan em março. A empresa, no entanto, cancelou sua rota sazonal entre Los Angeles e Anchorage para este verão.
Analistas alertam que a situação tende a piorar se não houver uma solução diplomática para a guerra e a reabertura das rotas de abastecimento. A IEA e outras agências monitoram os estoques globais, enquanto as companhias aéreas revisam suas redes de voos diariamente para tentar mitigar os prejuízos.