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Imagine encontrar, perto de uma represa que abastece sua cidade, um terreno público transformado em depósito de tudo. De sofás velhos a algo muito mais sinistro: caixões. Foi exatamente isso que um morador de Serra Negra, no interior de São Paulo, denunciou ao Ministério Público, desencadeando uma investigação urgente sobre um lixão clandestino que pode estar envenenando o solo e a água há anos.

O caso, aberto em 13 de abril, vai muito além do descarte irregular de lixo doméstico. Os vídeos e fotos entregues pelas testemunhas revelam uma cena chocante, com indícios de que restos mortais podem ter sido despejados no local. A pergunta que fica no ar é: como uma área de 12 hectares – equivalente a quase 17 campos de futebol – pôde ser usada assim, a poucos metros de uma nascente, sem que ninguém notasse?

O que as imagens de satélite escondiam desde 2012

A investigação do MP-SP descobriu que o problema não é de hoje. Imagens de satélite comprovam que o descarte irregular na área próxima à Represa Santa Lídia acontece pelo menos desde 2012. "O local é um terreno público municipal", constata o termo de vistoria ambiental, que agora tenta medir o estrago.

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Entre os resíduos listados no inquérito, há de tudo: entulho, pneus, lixo eletrônico, móveis, restos de poda e até animais mortos, incluindo um cavalo que foi enterrado no local. Mas o item que mais chocou os investigadores foi a menção a caixões do cemitério municipal, alguns possivelmente ainda com restos mortais, descartados no meio do lixo.

A suspeita que pode envolver o poder público

O Ministério Público não investiga apenas os responsáveis pelo descarte. A grande questão é saber se houve omissão ou ciência prévia das autoridades ao longo de todos esses anos. A Polícia Ambiental já informou que a prefeitura local teria identificado alguns responsáveis, e o MP notificou o prefeito para que apresente esses nomes e detalhes.

Enquanto isso, as queimadas continuam. Muitas vezes iniciadas para reduzir o volume do lixo, o fogo acaba se alastrando pela vegetação, agravando ainda mais o desastre ambiental. A situação é tão grave que o MP requisitou uma vistoria urgente da Cetesb para avaliar a contaminação do solo e do lençol freático.

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O risco invisível para a população

O verdadeiro perigo, alertam os promotores, é silencioso. A proximidade com a represa e uma nascente cria um risco imediato de contaminação da água. Os produtos tóxicos liberados pela decomposição desse lixo misturado podem infiltrar no solo e atingir o lençol freático, comprometendo um recurso essencial para a região.

A investigação segue em andamento, com a coleta de depoimentos de servidores municipais e a espera do laudo ambiental. O caso de Serra Negra serve como um alerta brutal: o descaso com o lixo pode esconder crimes ambientais de grandes proporções, e a omissão permite que eles cresçam por mais de uma década, até que um morador, armado com uma câmera, decida dizer basta.