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Elon Musk, da SpaceX, afirmou que "o lugar mais barato para colocar IA será o espaço em 36 meses ou menos". A declaração, feita em um podcast na semana passada, reflete uma corrida emergente entre gigantes da tecnologia para construir data centers em órbita terrestre. Além da SpaceX, Google e startups como Starcloud anunciaram projetos ambiciosos para deslocar parte da computação de inteligência artificial para o espaço.

A SpaceX solicitou permissão regulatória para uma constelação de até um milhão de satélites com data centers movidos a energia solar, capazes de gerar 100 GW de poder computacional. O Google, por sua vez, anunciou o Projeto Suncatcher, com protótipos previstos para 2027. A Starcloud, startup apoiada por Google e Andreessen Horowitz, apresentou planos para uma constelação de 80 mil satélites.

Economia espacial ainda não fecha

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Por trás do otimismo, análises técnicas revelam obstáculos econômicos substanciais. Um estudo do engenheiro espacial Andrew McCalip mostra que um data center orbital de 1 GW pode custar US$ 42,4 bilhões, quase o triplo de um equivalente terrestre. O principal fator é o custo de lançamento: hoje, um Falcon 9 coloca carga em órbita por cerca de US$ 3.600 por quilo. Para viabilizar os data centers espaciais, o Projeto Suncatcher projeta a necessidade de uma redução para cerca de US$ 200/kg, uma melhoria de 18 vezes esperada apenas na década de 2030.

Essa redução depende do sucesso operacional e comercial do foguete Starship, da SpaceX, que ainda não atingiu a órbita. Economistas da consultoria Rational Futures alertam que, mesmo com o Starship, a SpaceX pode não repassar toda a economia de custos, mantendo preços próximos aos da concorrência, como o foguete New Glenn, da Blue Origin, estimado em US$ 70 milhões por lançamento.

Desafios técnicos: calor, radiação e painéis solares

Além do lançamento, a produção dos satélites é um entrave. "As pessoas não estão levando em conta que os satélites custam quase US$ 1.000 por quilo atualmente", disse McCalip ao TechCrunch. Satélites para IA precisarão de grandes painéis solares, sistemas complexos de gerenciamento térmico e links de comunicação a laser, aumentando massa e custo.

O gerenciamento de calor, longe de ser "grátis" no vácuo, exige grandes radiadores para dissipação. A radiação cósmica é outro problema, podendo degradar chips e causar erros de "bit flip". Empresas como Google e SpaceX já realizam testes com aceleradores de partículas para avaliar a resistência de seus processadores.

Os painéis solares também apresentam um dilema: os de elementos terras raras são duráveis, mas caros; os de silício, mais baratos, degradam-se mais rápido pela radiação, limitando a vida útil dos satélites a cerca de cinco anos.

Treinar ou inferir? A arquitetura da IA no espaço

Uma questão central é qual função esses data centers orbitais cumpririam. O treinamento de novos modelos de IA, que requer milhares de GPUs trabalhando em coerência, é considerado um desafio maior no espaço devido à limitação das conexões entre satélites. O Projeto Suncatcher do Google observa que seus data centers terrestres conectam redes de TPUs com centenas de gigabits por segundo, enquanto os melhores links laser entre satélites hoje atingem cerca de 100 Gbps.

Philip Johnston, CEO da Starcloud, acredita que "quase todas as cargas de trabalho de inferência serão feitas no espaço", imaginando desde agentes de voz até consultas ao ChatGPT sendo processadas em órbita. Sua empresa já tem um satélite de IA realizando inferência e gerando receita. Para inferência, dezenas de GPUs em um único satélite podem ser suficientes, representando um produto mínimo viável.

O caminho a frente e a aposta da SpaceX

Os proponentes do modelo acreditam que a produção em massa de satélites, impulsionada pela escala dos projetos, reduzirá custos. Para a SpaceX, a recente aquisição da xAI permite apostar em data centers tanto terrestres quanto orbitais. "Um FLOP é um FLOP, não importa onde ele viva", disse McCalip. "[A SpaceX] pode simplesmente escalar até atingir gargalos de licenciamento ou capex no solo, e então recorrer às suas implantações espaciais."

Enquanto a visão é grandiosa, executivos como Matt Gorman, CEO da Amazon Web Services, mantêm ceticismo: "Se você pensar no custo de colocar uma carga útil no espaço hoje, é massivo. Simplesmente não é econômico." O sucesso dos data centers orbitais dependerá de avanços simultâneos em lançamentos, manufatura de satélites e eficiência energética nas próximas décadas.