Um fundador de uma startup de tecnologia gerou intenso debate sobre os limites da cultura de trabalho após elogiar publicamente um funcionário que acessou ferramentas corporativas no dia de seu casamento. AJ Orbach, cofundador da empresa de análise de e-commerce Triple Whale, compartilhou no X, na terça-feira, um print de uma conversa no Slack que mostrava o diálogo com o colaborador durante sua licença para o matrimônio.
O post, que acumulou milhões de visualizações e centenas de respostas antes de ser deletado, foi amplamente criticado por normalizar a expectativa de que funcionários estejam sempre disponíveis, mesmo em momentos pessoais importantes. Em resposta à repercussão negativa, Orbach publicou um pedido de desculpas na quinta-feira.
O post viral e a reação nas redes
Na publicação original, AJ Orbach exibiu uma captura de tela em que perguntava a um membro da equipe, via Slack: "Como está indo?". A resposta do funcionário foi: "Está indo, casei esta manhã/tarde, mas estou de volta online". Orbach elogiou a dedicação, descrevendo-a como "especial".
"Um de nossa equipe acabou de se casar hoje… e ainda apareceu online por um tempo", escreveu Orbach no post deletado. "Não porque ninguém pediu. Está em licença totalmente aprovada. Apenas genuinamente animado com o que está construindo. Esse tipo de propriedade é especial. Também disse a ele para sair", completou.
A reação nas redes foi imediata e majoritariamente negativa. Ariel Rubin, chefe de conteúdo da empresa de software Air, chamou o post original em uma publicação no LinkedIn de "uma das coisas mais sombrias que já vi neste site". O comentário de Rubin atraiu quase 300 interações.
O pedido de desculpas e a cultura "sempre ativo"
Diante da repercussão, Orbach voltou ao X na quinta-feira para se retratar. "Serei o primeiro a admitir que minha empolgação me dominou aqui", afirmou. "Eu me importo muito com esta empresa. Provavelmente demais às vezes. Esta foi uma dessas vezes".
Especialistas ouvidos pelo Business Insider, que originalmente reportou o caso, vinculam o episódio a discussões mais amplas sobre como ferramentas de comunicação digital perpetuam uma cultura de trabalho "sempre ativo". Thomas Roulet, professor de sociologia organizacional da Cambridge Judge Business School, destacou que a incerteza do mercado intensificou essa pressão. "O trabalho em si é acelerado devido ao alto nível de incerteza e volatilidade na maioria dos setores. Isso exige que as pessoas frequentemente estejam disponíveis fora do horário para solicitações urgentes", disse.
Almuth McDowall, professora de psicologia organizacional da Birkbeck University of London, foi crítica: "É um problema persistente em muitas organizações que mensagens no Slack e WhatsApp sejam disparadas o tempo todo, sem limites ou reflexão". Sobre o pedido de desculpas de Orbach, ela aconselhou: "Se você é um líder de negócios autêntico, admita, diga o que está fazendo para reparar o dano e descreva etapas claras de como vai melhorar".
Contexto do mercado e falta de resposta
O debate sobre os limites entre vida pessoal e profissional se intensificou com a popularização do trabalho remoto durante a pandemia. Embora um boom pós-pandemia tenha aliviado parte da pressão por produtividade extrema em alguns setores, demissões em massa e uma renovada busca por eficiência nos últimos anos recolocaram essa tensão.
A Triple Whale, a empresa de Orbach, não respondeu imediatamente a vários pedidos de comentário do Business Insider sobre o post. Tanto AJ Orbach quanto o funcionário mencionado na postagem, identificado como Dylan Gifford, também não responderam aos pedidos de comentário da reportagem.