Publicidade

Imagine passar a madrugada em uma fábrica, longe de casa, contando os sulcos na cabeça de um parafuso com uma lupa. Foi assim, em um detalhe aparentemente insignificante, que começou a trajetória do homem que vai comandar a Apple a partir de setembro. John Ternus, até então um nome desconhecido fora dos círculos mais técnicos, foi anunciado como o sucessor de Tim Cook. E a história por trás dessa escolha revela muito sobre o futuro que a gigante de Cupertino quer construir.

Quem é essa figura que, aos 51 anos, dedicou metade da vida à Apple e agora assume o leme de uma das empresas mais valiosas do mundo? Por que a companhia, que só teve dois CEOs neste milênio, apostou em um engenheiro obcecado por detalhes em vez de um executivo midiático? A resposta pode estar não em um discurso grandioso, mas na beleza oculta da parte de trás de um armário.

Da lupa ao topo: a obsessão pelos detalhes que conquistou a Apple

John Ternus não é um CEO típico do Vale do Silício. Ele não tem conta no X (antigo Twitter) e manteve um perfil baixíssimo durante seus 25 anos de casa. Sua promoção a vice-presidente sênior de engenharia de hardware em 2021 foi um sinal discreto, mas poderoso, de que a Apple valorizava a continuidade e a expertise profunda acima de tudo. Com 15 anos a menos que Tim Cook, Ternus representa uma aposta de longuíssimo prazo.

Publicidade

Em seu discurso de formatura na Universidade da Pensilvânia em 2024, Ternus deu uma pista sobre sua filosofia: "Sempre presuma que você é tão inteligente quanto qualquer outra pessoa na sala, mas nunca presuma que você sabe tanto quanto elas". Essa mistura de confiança e humildade é rara em um ecossistema conhecido por egos abrasivos. Mas o que realmente define seu caráter é uma história sobre um parafuso e uma lição de Steve Jobs.

A lição do armário que ninguém vê e o legado que todos sentirão

Quando perguntaram a Ternus sobre sua memória favorita de Steve Jobs, ele não citou um lançamento espetacular. Ele lembrou do cofundador da Apple admirando a parte de trás de um armário. "O carpinteiro que fez aquilo deixou a parte de trás tão bonita quanto o resto, mesmo que ninguém fosse ver", refletiu Ternus. Essa obsessão pela excelência invisível é o fio condutor de sua carreira.

Publicidade

Foi com essa mentalidade que ele liderou o desenvolvimento de hardware de produtos que definiram eras: dos AirPods e do Apple Watch ao ambicioso Vision Pro. Ele também foi peça central na transição histórica dos Macs para os chips Apple silicon. Seu projeto mais recente, o MacBook Neo, prova seu pragmatismo: um laptop mais acessível que usa um chip de iPhone, sem abrir mão da "experiência Apple".

Os enormes desafios que aguardam o novo comandante

A partir de 1º de setembro, a tarefa de John Ternus será hercúlea. Ele precisa acelerar a corrida da Apple na inteligência artificial, área onde a empresa é vista como atrasada. Também terá que decidir o destino da tecnologia por trás do Vision Pro e transformá-la em um produto verdadeiramente massivo. O mundo aguarda para ver se a mente meticulosa que contava sulcos de parafusos terá a audácia para as grandes apostas do futuro.

Fora do trabalho, Ternus doou para campanhas democratas e, na universidade, construiu um braço mecânico controlado por movimentos da cabeça para pessoas com tetraplegia. São detalhes de um perfil complexo que agora sairá definitivamente das sombras. A era Cook chega ao fim. Começa a era Ternus. E tudo indica que ela será construída, parafuso por parafuso, com a mesma atenção obsessiva aos detalhes que ninguém vê, mas que todos sentem.