Imagine uma empresa que, por mais de 20 anos, se recusou a crescer. Enquanto todos os seus concorrentes inchavam seus fundos para bilhões de dólares, a Benchmark Capital mantinha uma disciplina quase monástica: fundos de no máximo US$ 425 milhões, focados apenas em startups no início da vida.
Essa estratégia a transformou em uma lenda, gerando retornos astronômicos com investimentos precoces em eBay, Snap, Uber e Twitter. Mas, agora, o cenário mudou. E a mudança é tão radical que forçou a lendária firma a fazer o que nunca fez antes.
O gigante acordou: os números do novo fundo
A Benchmark acaba de fechar US$ 2 bilhões em compromissos, divididos em dois novos fundos. O mais surpreendente é um veículo de US$ 1,25 bilhão dedicado exclusivamente a investimentos em estágios mais avançados (growth stage). É a primeira vez que a firma cria um fundo focado em empresas maduras.
O outro fundo, de US$ 750 milhões, continuará a apostar em startups em estágio inicial, mas com uma diferença crucial: mais flexibilidade para escrever cheques maiores em um mercado onde as avaliações das empresas jovens dispararam.
Por que a Benchmark cedeu agora? A resposta está na IA
A razão para essa guinada histórica tem nome e sobrenome: Inteligência Artificial. O modelo enxuto da Benchmark a impedia de participar das rodadas bilionárias que se tornaram comuns no setor. Enquanto concorrentes investiam pesado em startups como Anthropic e OpenAI, a Benchmark ficou de fora.
"Os fundos pequenos provavelmente impediram a firma de investir em startups de IA que exigem muito capital", especialmente as que constroem modelos de fundação, cujas rodadas frequentemente chegam a centenas de milhões de dólares.
O resultado? A Benchmark não tem participação em nenhum dos grandes laboratórios de IA, como Anthropic, OpenAI, Periodic Labs ou Reflection AI.
O caso que virou alerta: o negócio que escapou
Para entender o dilema, basta olhar para o caso da Manus, uma plataforma de agentes de IA de Cingapura. A Benchmark liderou um investimento de US$ 75 milhões na empresa, que atingiu US$ 100 milhões em receita recorrente anual em apenas oito meses.
Quando o Meta concordou em comprar a Manus por cerca de US$ 2 bilhões, parecia mais um grande acerto da Benchmark. Mas o negócio foi bloqueado por reguladores chineses em abril, deixando a participação da firma em um limbo. O episódio mostrou que, no jogo da IA, até os melhores podem ser surpreendidos.
O dinheiro novo e a nova estratégia
O novo fundo de growth permitirá que a Benchmark faça de cinco a seis grandes investimentos, tanto em empresas do seu portfólio quanto em novas startups. A virada de chave veio depois de um grande sucesso: a empresa usou um veículo especial (SPV) de US$ 225 milhões para participar da rodada pré-IPO da Cerebras, fabricante de chips de IA.
O resultado? A Cerebras abriu capital no mês passado e rendeu US$ 3,25 bilhões para a Benchmark. Esse lucro bilionário mostrou que, às vezes, é preciso quebrar as próprias regras para continuar vencendo.
A dança das cadeiras: a nova cara da Benchmark
As mudanças não param no dinheiro. Nos últimos dois anos, a Benchmark passou por uma renovação significativa em seu quadro de sócios. Sarah Tavel, a primeira e única mulher sócia geral da história da firma, assumiu um papel menos ativo, enquanto Victor Lazarte saiu para fundar sua própria gestora.
Para preencher as lacunas, a Benchmark trouxe dois nomes de peso: Everett Randle, contratado do Kleiner Perkins, e Jack Altman, irmão de Sam Altman, CEO da OpenAI. A contratação de Jack Altman é um movimento simbólico e estratégico, conectando a Benchmark ao coração do ecossistema de IA.
A mensagem é clara: até a Benchmark, definida por décadas por sua resistência ao crescimento, agora reconhece que a era da IA exige um novo manual. Mais capital, mais estágios de investimento e sangue novo na mesa dos sócios.
O que antes era uma fortaleza inabalável agora se adapta para não ser deixada para trás. E você, vai ficar de fora dessa história?
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