Análise
Links ilegais continuam circulando. Pedidos de bloqueio não bastam para comprovar que o governo conteve a oferta e o dinheiro destinado às apostas.
A proibição das bets não fez desaparecer a divulgação de plataformas clandestinas. Um levantamento publicado pela Folha na quarta-feira (7) identificou links ilegais circulando no WhatsApp e no Telegram após o veto. Ao mesmo tempo, o governo relata a interrupção das operações antes autorizadas e milhares de pedidos de bloqueio.
O problema para o governo é concreto: anunciar uma proibição não demonstra, por si só, que a oferta clandestina foi contida. A proteção prometida às famílias precisa ser comprovada por resultados na fiscalização, no acesso aos jogos e no fluxo de dinheiro. Essa é a cobrança desta análise.
O que mudou para as empresas antes autorizadas
A Medida Provisória 1.394, de 25 de setembro, proibiu a oferta, a exploração, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online. Outras modalidades lotéricas autorizadas por lei ficaram fora dessa proibição.
Segundo o balanço do Ministério da Justiça divulgado em 6 de outubro, apenas um dos 188 sites antes autorizados ainda funcionava naquela verificação; seu bloqueio havia sido solicitado. O dado descreve o mercado supervisionado naquele momento, não toda a oferta de jogos na internet.
Na declaração registrada pela Agência Brasil em 6 de outubro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu que a ofensiva representa uma mudança no fluxo de dinheiro das famílias, citando a movimentação diária anteriormente destinada às bets. A posição oficial deve ser considerada, mas não substitui a medição específica da oferta clandestina.
Os links clandestinos continuam aparecendo
A reportagem da Folha informa que foram identificados 1.845 links clandestinos nos dois aplicativos entre 26 de setembro e 6 de outubro. O número ficou próximo da média de setembro, de 1.870, e abaixo da média do restante do ano, de 2.440.
O recorte aponta continuidade da divulgação monitorada, sem demonstrar crescimento após o veto. Também não é uma contagem de depósitos, apostas realizadas ou jogadores únicos. Uma pessoa pode receber vários links sem apostar, e o mesmo endereço pode circular entre diferentes grupos.
O governo precisa mostrar o resultado dos bloqueios
No balanço oficial, 13.241 sites ilegais foram encaminhados para bloqueio entre 25 de setembro e 6 de outubro. Também foram solicitadas remoções de 3.552 páginas, perfis, canais, grupos e servidores.
Esses números registram alvos da fiscalização. Não comprovam, individualmente, que todos ficaram inacessíveis nem medem a parcela do mercado eliminada. Divulgar pedidos é insuficiente para demonstrar eficácia. O governo precisa tornar verificáveis os resultados: quantos bloqueios foram cumpridos, por quanto tempo as operações permaneceram indisponíveis e qual foi o impacto na movimentação financeira.
A crítica não depende de afirmar que a maioria joga no clandestino
As fontes consultadas não apresentam uma pesquisa representativa capaz de confirmar essa afirmação. A quantidade de plataformas, a frequência de anúncios e relatos de conhecidos não bastam para calcular a proporção de apostadores.
Houve uma mudança nas operações antes autorizadas, enquanto a divulgação clandestina persiste. Isso já justifica cobrar fiscalização efetiva, sem transformar a percepção de usuários numa estatística nacional. Para saber quanto o consumo de apostas diminuiu ou migrou, são necessárias medições comparáveis de usuários e movimentação financeira, com período e metodologia claros.
A promessa precisa sair do anúncio
A própria MP, no artigo 14, prevê restrições ao processamento de pagamentos destinados às apostas de quota fixa, com exceções para o encerramento das operações e a restituição dos valores. Portanto, a política não se resume juridicamente a proibir sites. O que precisa ser demonstrado é sua execução.
Esta análise considera insuficiente tratar o fechamento das empresas antes autorizadas como prova de que o problema das apostas foi resolvido. A cobrança ao governo é por resultados verificáveis contra a oferta clandestina. Enquanto links continuam sendo identificados, declarar a vitória seria prematuro; dizer que nada mudou também ignoraria mudanças documentadas.
Para a situação das apostas que já estavam em aberto, veja também o guia do Estado24h sobre a proibição.
Apuração atualizada em 8 de outubro de 2026. Esta é uma análise baseada nas fontes indicadas, sem teste direto de sites de apostas. Os balanços citados têm datas e abrangências diferentes e não constituem uma pesquisa nacional sobre jogadores.
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