Kevin Warsh, indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para assumir o comando do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), é visto por antigos colegas como um líder que prioriza a escuta e a construção de consenso. Essa característica seria crucial para conduzir a instituição em um momento de pressões políticas externas e divisões internas sobre a política monetária, segundo análise de especialistas ouvidos pelo *Business Insider*.
Warsh, que foi membro do Conselho de Governadores do Fed entre 2006 e 2011, emergiu nos últimos anos como um crítico vocal das políticas do banco central. Se confirmado pelo Senado para suceder Jerome Powell, cujo mandato termina em maio, ele precisaria gerenciar um comitê de política monetária que não vota de forma unânime desde julho do ano passado.
Habilidade de mediação em um Fed dividido
Avaliações de quem trabalhou com Warsh destacam sua capacidade de leitura de ambiente e mediação. Donald Kohn, que passou 40 anos no Fed e atuou ao lado de Warsh como governador, afirmou que o indicado "tem uma boa habilidade para ler a sala". Kohn, hoje pesquisador sênior da Brookings Institution, disse ter trabalhado em estreita colaboração com Warsh durante os "anos estressantes" da crise financeira global de 2007-2009.
"Ele sabe que precisará usar suas consideráveis habilidades para reunir evidências e análises para apoiar a direção que deseja tomar na política", disse Kohn em declaração ao *Business Insider*. A necessidade de construir argumentos sólidos é particularmente importante porque o presidente do Fed tem apenas um dos 12 votos no Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), embora também controle a "equipe incrivelmente poderosa" da instituição.
Críticas recentes e defesa da independência
Nos últimos anos, Warsh intensificou suas críticas ao Fed, inclusive em discursos e em seu trabalho acadêmico na Universidade de Stanford. Em um artigo de opinião de 2023 no *The Wall Street Journal*, ele defendeu uma "mudança de regime" na política econômica dos EUA e criticou o banco central por ter sido muito lento para conter a inflação após os cortes de juros no início da pandemia.
Apesar das críticas, Aaron Klein, pesquisador sênior da Brookings Institution que trabalhou com Warsh após os ataques de 11 de setembro de 2001, avalia que os comentários feitos a partir da academia foram "razoáveis e ponderados". Klein, que foi assessor democrata na confirmação original de Warsh pelo Senado em 2006, afirmou que o indicado "tem um conjunto de habilidades muito valioso de experiência interna e crítica externa".
Klein acrescentou que a experiência de Warsh o torna um operador ideal para promover mudanças no banco central, caso seja novamente confirmado pelo Senado. "Espero que ele agite o processo de tomada de decisão do Fed, que errou a maioria das grandes questões regulatórias bancárias nos últimos 30 anos, mantendo a independência do Fed na política monetária", disse Klein.
Visões divergentes sobre capacidade de liderança
Nem todos os analistas veem Warsh como um agente de mudança. Joseph Brusuelas, economista-chefe da consultoria RSM US, alertou que seu instinto de buscar um terreno comum pode se tornar uma limitação. "Ele é orientado para o consenso e não está disposto a se colocar muito à frente do comitê", disse Brusuelas ao *Business Insider*.
Brusuelas, que analisou transcrições das reuniões de política do período em que Warsh esteve no Fed, afirmou que o indicado parecia mais um seguidor do que um líder. "Ele é um eco, não a ponta da lança", disse. Um estilo de liderança focado no consentimento comum e "organizado em torno da proteção do status quo" significa que Warsh provavelmente "sempre chegará tarde" às mudanças de política necessárias devido a choques domésticos ou externos, avaliou Brusuelas.
Defesa da indicação e próximos passos
Questionado sobre as críticas, o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, disse em comunicado que, para restaurar a confiança no Fed, as considerações primárias do presidente para um novo presidente foram "competência e experiência". "Kevin Warsh é eminentemente qualificado para o cargo", afirmou Desai.
O renomado economista Mohamed El-Erian também vê Warsh como uma boa escolha, escrevendo no X (antigo Twitter) que o indicado "traz uma forte mistura de profunda experiência, ampla experiência e habilidades de comunicação afiadas". A indicação de Warsh ainda precisa passar pela confirmação do Senado dos Estados Unidos, onde sua trajetória e visões sobre a política monetária serão debatidas.