O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou nesta segunda-feira (02) que a França aumentará seu arsenal nuclear e estabelecerá um esquema de cooperação estratégica com oito países europeus. O discurso, realizado na base de submarinos nucleares de Île Longue, na Bretanha, atualiza a doutrina de defesa do país em meio à guerra na Ucrânia e a tensões no Oriente Médio.
Macron afirmou que os interesses vitais da França "não terminam na fronteira" e incluem também o continente europeu. A nova estratégia, chamada de "dissuasão avançada", permitirá o envio temporário de aeronaves francesas armadas com ogivas nucleares para países aliados, embora a decisão final sobre o uso das armas permaneça exclusiva do presidente francês.
Detalhes da cooperação e do arsenal
Os oito países que concordaram em participar do esquema são: Alemanha, Reino Unido, Polônia, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca. Essas nações poderão sediar as "forças aéreas estratégicas" francesas. "A Alemanha é um parceiro-chave", disse Macron, anunciando que os primeiros passos da colaboração, incluindo visitas a locais estratégicos e exercícios conjuntos, começarão ainda este ano.
Em paralelo, Macron e o chanceler alemão, Friedrich Merz, anunciaram a formação de um grupo de trabalho bilateral dedicado à coordenação de capacidades convencionais, de defesa antimíssil e nucleares.
A França possui o quarto maior arsenal nuclear do mundo, com cerca de 290 ogivas, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri). O país conta com quatro submarinos nucleares capazes de lançar mísseis com alcance de 10 mil km e caças Rafale que podem disparar mísseis de cruzeiro nucleares. Macron anunciou que a França não divulgará mais o número total de suas armas e confirmou a construção de um novo submarino nuclear, a ser lançado em 2036.
Contexto geopolítico e justificativas
O anúncio ocorre num momento de crescente instabilidade internacional. Macron citou explicitamente a guerra da Rússia contra a Ucrânia, que entra em seu quinto ano, e os recentes ataques dos EUA e de Israel ao Irã, que, segundo ele, trazem "instabilidade e uma possível conflagração às nossas fronteiras".
"Quem quer ser livre deve ser temido. Quem quer ser temido deve ser forte", declarou o presidente, defendendo o fortalecimento da dissuasão nuclear francesa diante de "múltiplas ameaças". Desde a saída do Reino Unido da União Europeia em 2020, a França é a única potência nuclear do bloco.
Próximos passos e implicações
A nova doutrina representa uma guinada na política de defesa francesa, buscando projetar seu poder nuclear como um pilar da segurança europeia. O esquema de cooperação prevê ainda a "participação convencional de forças aliadas em nossas atividades nucleares", como já ocorreu em exercícios com tropas britânicas.
A base de Île Longue, onde o discurso foi proferido, abriga os quatro submarinos nucleares franceses, com pelo menos um permanentemente no mar para garantir a dissuasão contínua. A medida reforça o papel estratégico da França na Otan e sua postura de liderança militar autônoma dentro da Europa.