O verdadeiro motivo pelo qual um neozelandês largou tudo para construir cabanas no Japão
Mori Nishimura, 34, trocou a vida na cidade por um projeto inédito: cabanas sobre rodas que driblam leis de zoneamento
Você já se sentiu perdido, sem saber exatamente onde é o seu lugar no mundo? Pois foi exatamente assim que Mori Nishimura se sentiu durante boa parte da vida. Filho de um japonês que fugiu das pressões de Tóquio para criar os filhos na Nova Zelândia, Mori cresceu dividido entre duas culturas — e essa crise existencial o levou a uma descoberta inédita que está revolucionando o turismo rural no Japão.
O menino que construía cabanas na floresta
Aos 16 anos, Mori tomou uma decisão que mudaria tudo: mudou-se sozinho para o Japão e entrou em um internato em Kyoto. "De repente, eu tinha toques de recolher, ao contrário da liberdade que tinha na Nova Zelândia", conta ele. Mas, pela primeira vez, não era mais o estranho no ninho. Dois terços dos colegas eram "retornados" — crianças que cresceram fora do Japão e voltaram — e eles se entendiam perfeitamente.
Foi na universidade que Mori redescobriu uma paixão adormecida: explorar o interior do Japão. Antes das aulas, ele pegava o carro, dirigia para lugares remotos e surfava. Aquilo o lembrava da infância, quando fugia para o bosque perto de casa e construía cabanas improvisadas.
O insight que veio dentro de um trailer
Depois de se formar em 2015, Mori se sentiu perdido de novo. Trabalhou com imóveis em Tóquio, mas algo não encaixava. Durante a pandemia, viajando pelo Japão rural, ele tropeçou em uma ideia genial: uma empresa americana construía cabanas minúsculas sobre chassis de trailer. O pulo do gato? Como eram legalmente classificadas como veículos, essas cabanas escapavam das leis de zoneamento e das burocracias de construção.
"Adaptei o conceito para o Japão", explica ele. Em 2024, Mori compartilhou a ideia no LinkedIn, sem nenhuma intenção de atrair investidores. Mas o tiro saiu pela culatra — de forma positiva. Investidores começaram a procurá-lo. Hoje, seus dois funcionários em tempo integral também o encontraram pela plataforma. "O LinkedIn se tornou uma forma inesperada de construir uma equipe e uma rede de apoiadores", diz.
Uma cabana de R$ 1.000 por noite que nunca fica vazia
Em agosto do ano passado, Mori abriu sua primeira cabana em um parque nacional em Chiba, a duas horas de trem de Tóquio. O espaço tem apenas 16 metros quadrados — o tamanho de um quarto de casal — e é feito de cedro japonês. O grande diferencial? Uma janela panorâmica que domina a paisagem natural. Os hóspedes ganham lenha, café, chá e bicicletas para pedalar até o supermercado mais próximo.
O resultado? Ocupação total em três meses. E não parou mais. A segunda cabana abriu em maio deste ano, e a terceira chega em setembro. O preço? Cerca de US$ 190 (aproximadamente R$ 1.000) por noite para duas pessoas.
O segredo que ele escondeu dos pais
Mori não contou aos pais quando começou o negócio. "Eles provavelmente teriam me impedido", admite. Quando descobriram, ficaram surpresos, mas apoiaram. A inspiração maior veio do pai: há cinco anos, ele voltou para o Japão e começou a procurar terrenos baratos no interior para construir sua própria cabana. Diagnosticado com uma doença terminal, ele nunca viu o sonho realizado.
"Meu pai me deu o nome 'Mori', que significa 'floresta' em japonês. Parece que nasci para isso", reflete o empreendedor. 70% dos hóspedes são mulheres — uma surpresa para ele, que esperava mais aventureiros solitários. E, ironicamente, Mori mal consegue aproveitar as próprias cabanas: "Queria descansar nelas, mas estão sempre lotadas."
O futuro? Com o ecossistema de startups ainda engatinhando no Japão — há poucas opções de venture capital — Mori sabe que o caminho é desafiador. Mas, com cada cabana que abre, ele prova que é possível construir um negócio lucrativo e sustentável fugindo das regras tradicionais. E, de quebra, honrar o legado do pai.
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