Governos ao redor do mundo estão pedindo que a população reduza o consumo de energia diante da disparada nos preços internacionais do petróleo. O barril de Brent, referência global, superou a marca de US$ 100 no mês passado pela primeira vez desde 2022, patamar em que se mantém. O aumento segue ataques a navios no Estreito de Ormuz e a infraestruturas de gás, elevando temores de interrupções prolongadas em uma rota que transporta cerca de 20% da cadeia de suprimentos mundial.
Em resposta, nações estão implementando medidas para conservar combustível e proteger o abastecimento doméstico. A Tailândia, por exemplo, anunciou que suspenderá exportações de combustível, enquanto outras estão pedindo cortes no consumo dos cidadãos. A crise é atribuída ao conflito no Oriente Médio, que tensionou o mercado global de energia.
Orientações internacionais e medidas na Europa
A Agência Internacional de Energia (AIE) emitiu uma lista de 10 medidas que governos, empresas e consumidores podem adotar imediatamente para aliviar o impacto das disrupções. As recomendações incluem trabalhar de casa, evitar viagens aéreas, reduzir limites de velocidade em rodovias em pelo menos 10 km/h, compartilhar carros e usar mais o transporte público. A AIE afirmou que, embora essas ações "não possam igualar a escala da oferta interrompida", elas podem "reduzir custos para consumidores e preservar combustíveis para usos essenciais".
A Comissão Europeia pediu que as pessoas sigam o conselho da AIE. O chefe de energia da UE, Dan Jørgensen, alertou para uma crise energética prolongada, afirmando que "mesmo se a paz chegar amanhã, ainda não voltaremos ao normal num futuro previsível".
Ações na Ásia e Pacífico
Nas Filipinas, o governo implementou uma semana de trabalho de quatro dias para funcionários públicos (excluindo serviços de emergência) e ordenou cortes no uso de eletricidade e combustível em repartições. O presidente Ferdinand Marcos Jr. disse que o país, que depende do Oriente Médio para quase 90% de seu suprimento de petróleo, busca fontes alternativas e métodos para subsidiar a população.
Na Austrália, os estados de Victoria e Tasmânia ofereceram transporte público gratuito por períodos determinados. A primeira-ministra de Victoria, Jacinta Allan, citou a pressão sobre a oferta, enquanto o governo federal reduziu pela metade o imposto sobre combustível por três meses. Apesar de não haver racionamento oficial, postos de gasolina em alguns estados impuseram limites de compra.
O governo do Paquistão determinou uma série de medidas drásticas, incluindo semana de quatro dias, home office para metade dos funcionários públicos, fechamento de escolas por duas semanas, congelamento de salários de ministros e corte de 20% nos gastos governamentais. Até partidas da liga de críquete Pakistan Super League foram determinadas a ser realizadas sem torcida nos estádios para economizar combustível.
Outros países asiáticos também agiram: o Vietnã pediu que empresas incentivem o home office; a Indonésia passou a racionar combustível, limitando a 50 litros por veículo por dia para consumidores privados, e ordenou home office para servidores públicos; e a Índia usou poderes de emergência para desviar suprimentos de GLP de usuários industriais para residências.
Respostas em outras regiões
No Reino Unido, o presidente da AA, maior associação de motoristas do país, Edmund King, aconselhou os motoristas a "considerar cortar algumas viagens não essenciais e mudar seu estilo de direção para conservar combustível". O primeiro-ministro Keir Starmer prometeu apoiar os cidadãos com o custo de vida.
Na Tailândia, o primeiro-ministro Anutin Charnvirakul pediu que a população não faça estoque de combustível, alertando para riscos de incêndio, após filas se formarem em postos. O governo tailandês garantiu um teto para o preço do diesel por 15 dias.
Outras nações implementaram medidas variadas: o Sri Lanka tornou as quartas-feiras feriado público para economizar combustível; a Dinamarca pediu que os cidadãos evitem dirigir se não for estritamente necessário; o Bangladesh antecipou férias de Ramadan em universidades e impôs apagões; o Egito determinou o fechamento de shoppings e restaurantes às 21h e reduziu iluminação pública; a Espanha aprovou um pacote de ajuda de US$ 5,8 bilhões que inclui redução de impostos sobre energia; e a Alemanha propôs um pacote que limita aumentos de preço em postos a uma vez por dia.
Contexto e perspectivas futuras
A alta do petróleo pressiona orçamentos governamentais, especialmente em países que subsidiam combustíveis, como a Indonésia, cujo orçamento foi baseado em um preço de US$ 70 o barril. Líderes alertam que a crise pode ser prolongada. O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, descreveu a situação como uma "tempestade massiva cuja duração é incerta" e pediu que os cidadãos economizem "cada gota de combustível", ao solicitar a aprovação de um pacote de gastos de 26,2 trilhões de wons (US$ 17 bilhões) para amortecer o impacto.
As medidas adotadas globalmente são vistas como paliativas para aliviar a pressão imediata sobre os consumidores e as cadeias de abastecimento, enquanto a instabilidade geopolítica no Oriente Médio, principal causa da crise, permanece sem solução.