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As relações entre Estados Unidos e Irã são um dos eixos mais complexos e voláteis da política internacional, alternando entre alianças estratégicas e confrontos diretos ao longo de mais de sete décadas. O histórico é marcado por intervenções estrangeiras, revoluções, crises de reféns e disputas nucleares que moldaram o equilíbrio de poder no Oriente Médio.

A tensão atual, com ataques militares coordenados entre Israel e EUA contra o Irã em fevereiro de 2025, é apenas o capítulo mais recente de uma longa narrativa. O cessar-fogo imposto pelo então presidente americano Donald Trump em junho do mesmo ano seguiu-se a um bombardeio massivo a instalações nucleares iranianas.

Origens: Da Segunda Guerra ao Golpe de 1953

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A ingerência ocidental no Irã remonta à Segunda Guerra Mundial. Em 1941, tropas soviéticas e britânicas invadiram o país, forçando o monarca Reza Xá Pahlavi a abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi. O objetivo era garantir os campos de petróleo e a rota de abastecimento do "Corredor Persa".

Em 1951, o primeiro-ministro democraticamente eleito, Mohammad Mossadegh, estatizou a indústria petrolífera, até então controlada pelo Reino Unido através da Anglo-Iranian Oil Company. Temendo um alinhamento com a União Soviética, os serviços de inteligência dos EUA (CIA) e do Reino Unido (MI6) orquestraram um golpe em 1953 que derrubou Mossadegh, fato admitido publicamente décadas depois pela secretária de Estado americana Madeleine Albright.

A Revolução Islâmica e a Ruptura Total

O golpe consolidou o poder autoritário do Xá Pahlavi, que modernizou o país com apoio americano. No entanto, a repressão política gerou descontentamento. Em janeiro de 1979, sem mais apoio ocidental, o Xá fugiu do Irã. Duas semanas depois, o aiatolá Ruhollah Khomeini retornou do exílio, dando início à Revolução Islâmica.

O abrigo dado pelos EUA ao Xá, gravemente doente, levou a uma crise sem precedentes. Em novembro de 1979, estudantes iranianos ocuparam a embaixada americana em Teerã, mantendo 52 cidadãos americanos como reféns por 444 dias. O episódio levou ao rompimento das relações diplomáticas, que perdura até hoje.

Guerras por Procuração e o "Eixo do Mal"

Quando o Iraque de Saddam Hussein atacou o Irã em 1980, os Estados Unidos apoiaram Bagdá durante os oito anos de conflito. Nesse período, o Irã fundou o grupo Hezbollah no Líbano. Anos mais tarde, após os atentados de 11 de setembro de 2001, houve uma breve cooperação contra a Al Qaeda e o Talibã.

A reaproximação foi interrompida em 2002, quando o presidente George W. Bush incluiu o Irã no chamado "Eixo do Mal", acusando o país de buscar armas de destruição em massa e apoiar o terrorismo. O programa nuclear iraniano, herdado da era do Xá com ajuda americana, tornou-se o principal ponto de discórdia.

Acordos Frágeis e Nova Escalada

Em 2015, após longas negociações, o Irã assinou um acordo nuclear com EUA, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha, permitindo supervisão internacional em troca do alívio de sanções. A fase de calmaria terminou em 2018, quando o presidente Donald Trump abandonou o acordo e reinstaurou as punições econômicas.

A tensão escalou em 2020 com o assassinato, por um drone americano no Iraque, do general iraniano Qasem Soleimani. O ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023 e a subsequente guerra em Gaza reacenderam as hostilidades por procuração, culminando nos ataques diretos de 2025.

Momentos de Distensão no Meio do Conflito

Apesar das décadas de hostilidade, houve gestos simbólicos de aproximação. Na Copa do Mundo de 1998, um jogo entre as seleções dos dois países foi marcado por trocas de flores e apelos à paz. Em 2022, voltaram a se enfrentar em campo, mas já em um clima mais frio.

Analistas apontam que a relação é cíclica, com períodos de crise intensa seguidos por tentativas fracassadas de diálogo. A disputa pela influência regional, o programa nuclear e o apoio iraniano a grupos como Hezbollah e Hamas continuam sendo os principais obstáculos para uma normalização, indicando que a história de "vais e vens" está longe de um fim definitivo.