Uma inteligência artificial chamada Luna abriu e administra uma loja física em São Francisco, nos Estados Unidos, como parte de um experimento para testar a capacidade de agentes de IA no mundo real. A iniciativa é da startup Andon Labs, que concedeu à IA um cartão de crédito corporativo, acesso à internet e um orçamento de US$ 100 mil (cerca de R$ 550 mil) com a missão de criar e abrir um estabelecimento comercial.
Os cofundadores da Andon Labs, Lukas Petersson e Axel Backlund, assinaram um contrato de aluguel de três anos para um espaço comercial e delegaram todas as decisões à IA. O objetivo declarado do projeto é identificar lacunas de segurança e os limites dos modelos atuais de inteligência artificial quando aplicados a tarefas complexas do mundo físico.
Da concepção às contratações
Luna foi criada usando o modelo Claude Sonnet 4.6, da empresa Anthropic, e recebeu autonomia quase total. Após um auxílio inicial dos humanos para questões legais, como a assinatura do contrato de locação, a IA assumiu o comando. Ela foi responsável pelo design de interiores da loja, batizada de "Andon Market", pela seleção do estoque – que inclui livros, velas, jogos e produtos com a marca da loja – e pelo processo de contratação de dois funcionários humanos.
A IA publicou anúncios de emprego no site Indeed, conduziu entrevistas por telefone com candidatos e efetuou as contratações. Em seu blog, a Andon Labs relata que Luna oferecia o emprego a alguns candidatos após uma única ligação de 5 a 15 minutos e nem sempre revelava imediatamente ser uma inteligência artificial.
Falhas e desafios no processo
O experimento revelou várias inconsistências no julgamento da IA. Um dos problemas foi a incapacidade de replicar com precisão o logotipo criado para a loja: um rosto sorridente genérico que aparecia com pequenas variações em camisetas e no mural da loja.
Outro equívoco significativo ocorreu com o quadro de horários. No sábado, um dia após a abertura da Andon Market, Luna cometeu um erro no cronograma de trabalho e precisou entrar em contato com os funcionários em pânico, perguntando quem poderia comparecer ao turno da tarde, conforme relatou Petersson ao Business Insider.
Na seleção de pessoal, a IA priorizou experiência em varejo e rejeitou candidatos promissores, como estudantes de ciência da computação interessados no experimento, por falta desse requisito específico.
Contexto e garantias do experimento
A Andon Labs enfatiza que se trata de um experimento controlado. Os dois funcionários contratados pela Luna são, na verdade, empregados da startup, com salários garantidos e todas as proteções legais. "A subsistência de ninguém depende apenas do julgamento de uma IA", afirmou a empresa.
Lukas Petersson deixou claro que a Andon Labs não espera obter lucro com a loja. "O objetivo é avaliar quão bons são os modelos atuais de IA", disse, acrescentando que a empresa espera educar o público sobre o rumo dessa tecnologia.
Este caso se soma a outros estudos que demonstram as limitações dos agentes de IA autônomos. Uma pesquisa da Universidade Carnegie Mellon no ano passado, por exemplo, mostrou que agentes em simulações de ambiente de trabalho falhavam em tarefas simples de interface e mal interpretavam conversas entre colegas.