Aproximadamente 11,5 mil brasileiros residem na Venezuela, segundo o mais recente levantamento do Ministério das Relações Exteriores. O número é significativamente menor do que em países como Paraguai (263 mil) e Argentina (101 mil). A recente escalada de violência no país vizinho, com ataques e o fechamento temporário da fronteira com o Brasil, gera incertezas sobre um possível novo fluxo migratório para Roraima.
Especialistas apontam que a migração, até então motivada principalmente por fatores econômicos, pode se transformar em um deslocamento forçado por conflito armado. O fechamento da fronteira entre Santa Elena de Uairén, na Venezuela, e Pacaraima (RR), foi temporário, mas o clima permanece de tensão, com vigilância reforçada pelo Exército Brasileiro.
Alerta para vulnerabilidade e exploração
Em entrevista ao Portal iG, Roberto Saraiva, coordenador do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), descreveu o cenário como de "surpresa diante da ação beligerante". Ele avalia que a ofensiva tem um objetivo político claro de destituição do governo de Nicolás Maduro.
A pastoral ainda não registrou a chegada imediata de "feridos de guerra", mas a expectativa é de aumento no volume de migrantes caso os ataques se intensifiquem. "Se as ações de ataque se intensificarem, aí sim. Entretanto, muitos podem voltar a migrar de forma volumosa", analisa Saraiva.
Um dos principais alertas é sobre a vulnerabilidade dos novos migrantes. Questionado se o novo fluxo poderia ser alvo fácil para redes de trabalho análogo à escravidão, Saraiva foi contundente: "Com certeza".
Risco de xenofobia e capacidade de resposta
Além da exploração laboral, há receio de que o acirramento do conflito inflame os ânimos no lado brasileiro, aumentando os riscos de atos xenofóbicos. O coordenador do SPM alerta que a rejeição aos venezuelanos já é alta e a dificuldade de integrar uma nova leva de refugiados pode piorar o cenário.
Saraiva também aponta para um possível gargalo na capacidade de acolhimento do Estado. "A Operação Acolhida no Brasil encolheu. E se a dinâmica piorar, vai ser complicado retomar as respostas dadas de forma imediata", afirmou. Diante da instabilidade, organizações da sociedade civil, como o SPM, acabam preenchendo lacunas deixadas pelo poder público.
Ele reforçou que, embora a legislação migratória brasileira seja uma das mais avançadas da América Latina, falta "vontade política" para sua consolidação efetiva. A sociedade civil segue atuando em locais onde nem o Exército nem agências humanitárias conseguem chegar.