Lei de vigilância dos EUA expira após Câmara rejeitar renovação e nomeação de aliado de Trump
Pela primeira vez, o FISA expira com a Câmara reprovando a renovação, enquanto a nomeação de Bill Pulte para chefiar agências de inteligência gera impasse.
A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos rejeitou a renovação da lei de vigilância sem mandado do governo americano, que expira nesta sexta-feira (data de referência), praticamente garantindo que ela expire pela primeira vez. A votação foi de 218 a 198, e a proposta precisava de dois terços dos votos para ser aprovada.
Dezenove deputados republicanos votaram contra a medida. De acordo com o Politico, a próxima votação está marcada para 23 de junho.
A lei, oficialmente chamada de Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira (FISA), permite que agências de inteligência dos EUA coletem grandes volumes de informações, inclusive de americanos, para identificar hackers estrangeiros, espiões e potenciais terroristas.
O que é a Seção 702 do FISA
Também conhecida como Seção 702, a regulamentação é considerada essencial para a segurança nacional por democratas e republicanos há anos. Os esforços bipartidários para renovar a lei estagnaram nas últimas semanas, e os legisladores só conseguiram aprovar extensões de curto prazo para continuar as negociações.
Críticos pedem uma reforma abrangente do FISA, citando abusos da lei por várias administrações anteriores. Parlamentares de ambos os partidos buscavam exigir que as agências de espionagem obtivessem um mandado aprovado por um tribunal antes de acessar comunicações privadas de americanos, mas o governo Trump pedia uma reautorização limpa da lei.
Aliado de Trump no comando da inteligência
Um novo obstáculo surgiu na semana passada, quando o presidente Trump nomeou um de seus aliados, Bill Pulte, como diretor interino de inteligência nacional dos EUA. O cargo supervisiona mais de uma dúzia de agências de espionagem, incluindo a CIA e a NSA.
A nomeação gerou temores de que Pulte usaria o cargo para atacar oponentes políticos de Trump e desmantelar o escritório de inteligência que supervisionaria. O Politico relata que a nomeação foi um "sinal claro do humor recente" dentro da Casa Branca e descreveu Trump como cada vez mais isolado e movido por queixas.
Democratas alertaram que a nomeação de Pulte seria um risco maior à segurança nacional dos EUA do que permitir que a lei expirasse, segundo o The Washington Post. Pulte, que não tem experiência em inteligência ou segurança nacional, começaria no cargo em 19 de junho, acumulando-o com sua função atual à frente de uma agência federal de habitação.
Na quinta-feira, porém, a administração retirou a nomeação de Pulte e o substituiu por Jay Clayton, atual procurador dos EUA para o Distrito Sul de Nova York e ex-presidente da SEC. Quando a notícia da nomeação de Clayton surgiu, muitos parlamentares já haviam deixado a capital para um recesso de uma semana, tornando improvável qualquer acordo de última hora para salvar o FISA.
Histórico de escândalos e vigilância
A Seção 702 do FISA ganhou destaque durante um escândalo de vigilância em 2013 que envolveu a NSA e vários aliados próximos dos EUA. O ex-contratante da NSA e delator Edward Snowden vazou milhares de documentos para jornalistas, revelando a escala das operações globais de vigilância dos EUA, que também incluíam americanos, embora eles sejam, em grande parte, constitucionalmente isentos de vigilância doméstica.
Usando programas autorizados pela Seção 702, a NSA coletou grandes volumes de comunicações mundiais que fluíam por cabos de fibra óptica submarinos, a espinha dorsal da internet. A NSA também acessou amplas porções de dados de usuários de gigantes da tecnologia como Apple, Facebook, Google e Microsoft, sob um programa chamado PRISM.
O que acontece agora?
Embora a lei expire nesta sexta-feira, os poderes ou programas de espionagem do governo dos EUA dificilmente cessarão tão cedo. Os programas de espionagem autorizados pelo FISA já foram aprovados em março como parte de um processo anual de certificação pelo Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira (FISC), com sede em Washington, D.C., que supervisiona os programas de vigilância do governo.
As autoridades dos EUA ainda podem usar suas ferramentas de vigilância sob o FISA até março de 2027, permitindo que grande parte dos programas de vigilância em massa continue operando. No entanto, as operadoras de telefonia que fornecem registros de chamadas de seus clientes ao governo podem se recusar a compartilhar essas informações sem uma lei clara que as autorize, segundo a Reuters.
O governo dos EUA ainda tem outras vias de vigilância, como a Ordem Executiva 12333, que concede poderes quase irrestritos para realizar vigilância em todo o mundo.
Parlamentares bipartidários continuam a alertar sobre abusos do FISA. No início deste ano, o senador Ron Wyden, um democrata sênior do Comitê de Inteligência do Senado, alertou que o FISA ainda está sendo ativamente usado para violar secretamente os direitos constitucionais dos americanos. Wyden, que tem acesso a informações confidenciais, disse que várias administrações dos EUA confiaram em uma interpretação secreta da Seção 702 que "afeta diretamente os direitos de privacidade dos americanos".
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