O mercado gospel movimenta cerca de R$ 21 bilhões por ano no Brasil, valor superior ao faturamento estimado do setor de influenciadores digitais. O dado é do relatório Gospel Power 2025, estudo conduzido pela Zygon Adtech em parceria com a EIXO, que mapeia o impacto econômico e cultural da fé evangélica, que hoje representa 26% da população brasileira, ou cerca de 47 milhões de pessoas.
A pesquisa revela que a religião deixou de ser apenas um sistema de crenças para se consolidar como uma força que molda estética, comportamento e consumo. Para 58% dos evangélicos, a fé impacta diretamente suas escolhas de compra, e o mesmo percentual se diz disposto a pagar mais por produtos alinhados a seus valores.
Juventude e digitalização impulsionam transformação
A renovação geracional é um dos motores do fenômeno. Adolescentes entre 15 e 19 anos representam cerca de 28% da base evangélica, enquanto crianças somam mais de 30%. Essa base mais jovem consome e produz conteúdo religioso em novas plataformas, como cultos transmitidos ao vivo, devocionais no TikTok, festivais de trap gospel e baladas sem álcool.
A pandemia acelerou a midiatização das igrejas. Atualmente, o YouTube lidera o consumo de conteúdo evangélico, seguido por WhatsApp, Instagram e TikTok. Nesse ambiente, líderes religiosos e criadores de conteúdo se tornam referências culturais e constroem comunidades altamente engajadas.
Fé como organizadora do cotidiano e pertencimento
O estudo ressalta que reduzir o "lifestyle gospel" a uma estratégia de marketing é um erro. Para muitos brasileiros, especialmente entre mulheres, pessoas negras e populações periféricas — que formam a maioria dessa base —, a igreja ocupa uma lacuna deixada pelo Estado, atuando como espaço de acolhimento, formação e assistência social.
O ecossistema gospel, no entanto, não é homogêneo. Ele abriga desde discursos de prosperidade e consumo premium até movimentos progressistas que debatem justiça social, raça e gênero, questionando estruturas tradicionais.
Desafio para marcas e mercado
A pesquisa aponta que 52% dos fiéis não se sentem representados pela publicidade atual, e 31% já boicotaram marcas consideradas desalinhadas com seus princípios. O recado para o mercado, segundo analistas, é claro: o desafio não é "entrar" no universo gospel, mas ajustar as lentes para compreender um sistema de valores complexo que orienta decisões cotidianas.
O crescimento evangélico no Brasil aponta para uma reconfiguração mais ampla dos padrões de consumo, estética e cultura contemporânea. Ignorar a intersecção entre fé, identidade e mercado pode custar mais do que relevância para marcas e criadores de conteúdo.