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Medicamentos injetáveis para emagrecimento, conhecidos como "canetas do Paraguai", circulam ilegalmente no Brasil sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A venda ocorre em farmácias clandestinas, por meio de intermediários e redes sociais, sem prescrição médica ou garantia de procedência, descumprindo a legislação sanitária brasileira.

Em São Paulo, uma reportagem encontrou estabelecimento que comercializa as ampolas de 15 mg por R$ 600 a unidade, sem exigir receita. O farmacêutico admitiu que ele e outros três funcionários compram o produto no Paraguai e realizam o transporte até o Brasil, orientando aplicações sem consulta médica formal.

Venda se espalha por redes sociais e WhatsApp

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A comercialização não se limita a pontos físicos. Anúncios frequentes nas redes sociais oferecem as "canetas do Paraguai", com vendedores afirmando importar diretamente do país vizinho ou atuar como revendedores, com envio para qualquer estado do Brasil. O principal argumento é o preço: enquanto uma caneta regularizada com tirzepatida custa cerca de R$ 1,7 mil, versões ilegais são vendidas por até R$ 300.

A reportagem identificou que a maior parte dos medicamentos vendidos no mercado informal não vem em canetas aplicadoras, mas em ampolas utilizadas com seringas. Muitos vendedores afirmam que os produtos contêm tirzepatida, enquanto alguns anúncios chegam a mencionar a "retatrutida" - substância que ainda não tem aprovação para uso clínico em nenhum país.

Consumidores relatam efeitos graves e automedicação

A vendedora Dayane Souza, 34 anos, começou a usar há quatro meses uma medicação chamada "Tirzec", adquirida de revendedor com origem no Paraguai. Ela relata perda de 28 kg no período, mas também efeitos colaterais como constipação, tontura, queda de cabelo e deficiência de vitamina B12. "Minha indicação era 2,5 mg, mas eu tomei 5 porque queria emagrecer mais rápido. Passei uma semana acordando de madrugada e vomitando", contou.

Outra consumidora, comerciante de Barra Velha (SC) que preferiu não se identificar, adquiriu o produto por grupo de WhatsApp. "Hoje em dia, em qualquer esquina por aqui, onde eu moro, tem gente que vende. Está quase que nem uma droga: todo mundo sabe onde tem", relatou. Ela paga R$ 300 por ampola que rende três aplicações, contra R$ 1.900 por quatro canetas em farmácia regular.

Especialistas alertam para riscos à saúde pública

O médico endocrinologista do Hospital das Clínicas da USP, Ramon Marcelino, afirma que o uso sem acompanhamento aumenta riscos de efeitos colaterais e contraindicações. "Pessoas com histórico de NAION, carcinoma medular de tireoide, transtornos alimentares descompensados, gestantes, lactantes e crianças menores de 12 anos não deveriam usar", alerta.

O endocrinologista João Wiese destaca a incerteza sobre o conteúdo dos frascos: "Não sabemos o que há dentro. São medicamentos injetáveis vendidos de forma paralela, sem regulação. Não há como assegurar a concentração da medicação ou sequer se o princípio ativo informado é realmente o que está ali".

Anvisa emite alerta sobre riscos e indícios de irregularidade

Em resposta, a Anvisa alerta que medicamentos adquiridos fora de farmácias regularizadas não possuem garantia de procedência, composição ou conservação adequada. A agência destaca riscos adicionais: ausência de responsável legal no Brasil, dificuldade de rastreabilidade, bulas em língua estrangeira e falta de controle sanitário sobre falsificações.

A Anvisa orienta consumidores a observarem indícios como erros de ortografia, ausência de hologramas de segurança, dados de lote ilegíveis, embalagens em outros idiomas ou preços muito abaixo do mercado. O órgão ainda alerta que o crime organizado está por trás dos medicamentos ilegais, com lucros financiando tráfico e outros ilícitos.