Moradores da região da Bela Vista, em São Paulo, denunciam excesso de ruído, problemas viários e possíveis irregularidades na operação da Cidade Matarazzo, complexo que abriga o Hotel Rosewood, o clube privado Soho House, áreas comerciais e espaços para eventos. As reclamações, que se acumulam desde a inauguração do empreendimento, são objeto de inquéritos civis em andamento no Ministério Público de São Paulo (MPSP), nas áreas de Urbanismo e Meio Ambiente.
O episódio mais recente ocorreu na madrugada de sábado, 24 de janeiro, quando moradores registraram níveis de ruído próximos a 80 decibéis por volta de 1h da manhã, valor muito acima dos limites previstos para áreas residenciais no período noturno. Em São Paulo, o Programa Silêncio Urbano (PSIU) estabelece, para zonas mistas residenciais, um teto noturno de cerca de 45 decibéis.
O caso ganhou repercussão após envolver o humorista e apresentador Danilo Gentili, morador da Alameda Rio Claro há mais de uma década. Segundo seu relato, ao ser abordado sobre o volume do som fora do horário permitido, uma representante do empreendimento se recusou a intervir e sugeriu que, se o morador estivesse insatisfeito, deveria se mudar. Gentili acionou a Polícia Militar, que constatou som acima do limite legal.
Problemas viários e uso do espaço público
Além do ruído, o Ministério Público apura a compatibilidade entre o Alvará de Licença de Funcionamento (ALF) do complexo e a infraestrutura real de acesso, embarque, desembarque e carga e descarga. Documentos técnicos anexados aos inquéritos indicam que a infraestrutura aprovada pode não comportar a operação real.
O ALF permite eventos com até 1.000 pessoas, mas, segundo moradores e registros apresentados ao MPSP, o complexo não dispõe de áreas internas suficientes para embarque, desembarque e carga e descarga compatíveis com esse fluxo. Como consequência, vias como a Alameda Rio Claro, Rua Pamplona e Rua Itapeva passaram a ser utilizadas como áreas operacionais improvisadas, com filas de carros de aplicativo, vans e caminhões em fila dupla.
Alda Ayres Rosselli, 64 anos, presidente da Associação de Moradores AMORPI, afirma que o complexo não dispõe de docas compatíveis com a escala de seus eventos, o que leva à carga e descarga de equipamentos diretamente na via pública, inclusive durante a madrugada.
Reclamações recorrentes e impactos na saúde
Moradores relatam um histórico de problemas. A arquiteta Dirce Carrion, residente há 34 anos, cita mais de dez anos de obras, alagamentos inéditos, rompimento de tubulações de gás e redução das vagas de estacionamento a menos de 30% do original. Ela também denuncia tentativa de implementação de um projeto de concessão da rua por até 30 anos, ligado a entidade privada associada ao empreendimento.
O economista Tiago Franceschini, 45 anos, afirma que o barulho ocorre de forma estrutural e recorrente em três frentes: carga e descarga de madrugada, ruído constante de grandes equipamentos de ar-condicionado e festas ao ar livre com banda ao vivo. Segundo ele, moradores chegaram a instalar janelas antirruído sem qualquer efeito.
Danilo Gentili relata que a transformação da Alameda Rio Claro de via de mão dupla em mão única comprometeu a mobilidade, dificultando o acesso ao Hospital Sírio-Libanês durante uma crise de saúde. O Hospital IGESP, vizinho ao complexo, formalizou apoio às denúncias, relatando dificuldades no acesso de ambulâncias.
Posicionamento dos empreendimentos
Em resposta, a Gerente de Comunicação da Soho House, Katiane Romero, enviou o posicionamento do clube, da Cidade Matarazzo e Hotel Rosewood São Paulo. A Cidade Matarazzo afirmou que suas operações são conduzidas em conformidade com a legislação e que as obras trouxeram melhorias definitivas, como sistema de drenagem e iluminação pública.
A Soho House São Paulo declarou que mantém um canal de diálogo aberto com a comunidade local, realizou dois encontros formais com os vizinhos nos últimos seis meses e contratou uma consultoria especializada em medição de ruídos. O Rosewood São Paulo reafirmou seu compromisso com a comunidade local, baseado na transparência e no diálogo, e informou que não aceita mais eventos que envolvam animais.
Andamento das investigações
O MPSP estabeleceu prazos para que a Prefeitura de São Paulo intensifique a fiscalização sobre ruído, capacidade real, uso do espaço público e cumprimento do alvará. Segundo os moradores, todo o conjunto documental já foi protocolado e fundamenta as investigações em curso. Dependendo dos resultados, o empreendimento pode sofrer multas, interdição parcial ou cassação de licença.