Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli utilizaram, em 2025, jatos executivos ligados ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, instituição com processos na Corte. As informações foram reveladas pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, com base em dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e do Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB).
Entre maio e outubro de 2025, Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci, realizaram ao menos oito voos em aeronaves da empresa de compartilhamento Prime Aviation. Vorcaro era sócio da companhia por meio de um fundo de investimento. A maioria das viagens (sete) ocorreu nessa empresa.
Conflito de interesses em questão
O caso ganha contornos de conflito de interesses porque o escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do ministro Moraes, era contratado para representar os interesses regulatórios do Banco Master em Brasília por um valor estimado em R$ 3,6 milhões mensais. Questionada, Barci afirmou que seu escritório contrata "diversos serviços de táxi aéreo" e que, entre eles, esteve o da Prime Aviation.
Ela explicou que todos os valores eram pagos "compensando os honorários advocatícios nos termos contratuais". Já o gabinete do ministro Alexandre de Moraes negou que ele tenha "jamais viajado em nenhum avião de Daniel Vorcaro".
Toffoli também utilizou aeronave da mesma empresa
Dois dias após a revelação sobre Moraes, a Folha divulgou que o ministro Dias Toffoli também voou em um jato da Prime Aviation. O voo ocorreu em 4 de julho de 2025, partindo de Brasília com destino a Marília (SP), cidade natal do ministro. De lá, Toffoli seguiu para o resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR).
O problema identificado não era o meio de transporte, mas o destino. Toffoli era sócio do resort Tayayá até o ano passado, por meio da empresa Maridt Participações. O cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, também possuía cotas no mesmo empreendimento, pelo fundo Arleen.
Contexto processual no STF
Toffoli atuou como relator de processos envolvendo o Banco Master no STF até ser obrigado a se declarar impedido. Antes disso, tomou uma série de decisões consideradas favoráveis aos interesses dos sócios do banco. O ministro agora precisa esclarecer se o voo para o resort do qual era sócio constituiu uma "carona" ou um serviço pago.
As revelações colocam em evidência a proximidade entre ministros da mais alta corte do país e um empresário do setor financeiro com múltiplos interesses em julgamento. A ausência de um código de conduta interno no STF que regule explicitamente esse tipo de relação extrajudicial é apontada como um fator que alimenta desconfianças sobre a isenção da Corte.