Você já imaginou descobrir que o corpo de um parente seu foi vendido para uma universidade, sem qualquer autorização, e usado como objeto de estudo por anos? Pois foi exatamente isso que aconteceu com milhares de famílias em Minas Gerais. E agora, décadas depois, a maior universidade pública do estado finalmente pediu desculpas.
No início de abril, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) formalizou um pedido público de desculpas pelo uso de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena em atividades acadêmicas, entre 1969 e 1981. O gesto rompe um silêncio de mais de 40 anos e pode abrir uma caixa-preta que o Brasil insiste em manter fechada.
O que realmente aconteceu dentro da universidade?
As investigações da jornalista Daniela Arbex, autora do livro "Holocausto Brasileiro", revelaram um dado estarrecedor: entre 1969 e 1981, 1.853 corpos de internos do hospital psiquiátrico foram vendidos para 17 instituições de ensino do país. A UFMG era uma delas.
Os corpos eram comercializados sem qualquer autorização das famílias. Os pacientes, a maioria sem diagnóstico de doença mental, morriam em condições degradantes — fome, frio, superlotação e violência — e tinham seus corpos transformados em mercadoria para aulas de anatomia.
O silêncio que durou décadas
"A gente só transforma aquilo que reconhece. Quando uma instituição assume seu papel, ela abre caminho para mudanças reais", afirmou Daniela Arbex ao iG. Para a jornalista, o pedido de desculpas da UFMG é histórico, mas é apenas o começo de um processo de reparação que ainda está longe do fim.
O reconhecimento do erro simboliza uma reparação histórica de uma das maiores violações de Direitos Humanos do país. E pode pressionar outras instituições a se posicionarem.
Quem mais está na lista?
Entre as instituições citadas, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) já sinalizou que pode seguir o mesmo caminho. Em nota ao iG, a instituição afirmou que reconhece a gravidade das práticas e que, "em data oportuna, vai se retratar publicamente perante a sociedade brasileira".
Outras universidades, como a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), em Uberaba, informaram que não possuem documentos internos que comprovem a compra dos cadáveres. Já a Faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio de Janeiro, afirmou que repudia "veementemente qualquer prática incompatível com os princípios legais e institucionais".
O Holocausto Brasileiro em números
Fundado em 1903, o Hospital Colônia de Barbacena se tornou um dos maiores símbolos de violação de Direitos Humanos no Brasil. Cerca de 60 mil pessoas morreram no local, vítimas de abandono, fome, frio, doenças e violência ao longo de décadas.
Os pacientes eram enviados em vagões de carga, no chamado "trem de doido", em viagens sem retorno. Muitos sequer tinham diagnóstico de doença mental — eram apenas pobres, negros, mulheres ou pessoas que a sociedade queria esconder.
O que vem agora?
A UFMG assumiu compromissos concretos, como a criação de espaços de memória, inclusão do tema nas disciplinas e preservação de registros históricos das vítimas. Mas, para Daniela Arbex, a reparação vai além.
"O pedido de desculpas é o começo. É preciso reconhecer a responsabilidade do Estado brasileiro e transformar essa memória em conscientização para que práticas como essas não se repitam. A saúde mental continua em disputa no Brasil. A gente não tem mais os grandes hospícios como antes, mas ainda existem práticas de exclusão e violação. É um tema absolutamente atual", concluiu a jornalista.
Quando a gente não fala sobre o que aconteceu, é como se nunca tivesse existido. E isso abre espaço para que tudo se repita.