O verdadeiro motivo da nova regra da faculdade de Direito de Berkeley: proibir IA não é o caminho

O verdadeiro motivo da nova regra da faculdade de Direito de Berkeley: proibir IA não é o caminho

Professor revela detalhes da política que permite o uso de inteligência artificial, mas com limites estratégicos.

Redação
Redação

22 de maio de 2026

Você já imaginou entrar na faculdade de Direito dos seus sonhos e descobrir que a inteligência artificial, que prometia revolucionar seus estudos, agora é quase um tabu? Pois é, a Universidade da Califórnia em Berkeley, uma das instituições mais renomadas do mundo, acaba de apertar o cerco contra o uso de IA por seus alunos. Mas, calma: a história não é bem o que parece.

A reviravolta que ninguém esperava

Enquanto muitas escolas estão correndo para banir completamente o ChatGPT e outras ferramentas, Berkeley tomou um caminho diferente. A nova política, que entra em vigor neste verão, não é uma proibição total, mas sim um “endurecimento estratégico”. O professor Chris Hoofnagle, um dos arquitetos das novas regras, revelou em entrevista ao Business Insider: “Nosso objetivo é desenvolver alunos com as habilidades fundamentais para a prática da advocacia com IA.”

A grande virada de chave? A política anterior de 2023 era, nas palavras do próprio Hoofnagle, “liberal demais”. Naquela época, os alunos podiam usar a IA para brainstorming, como pedir ajuda para escolher um tema de trabalho. Mas os avanços dos modelos generativos mudaram o jogo. “Ela pode, de fato, escrever um artigo de pesquisa do começo ao fim”, alertou o professor. Foi aí que Berkeley percebeu que precisava agir.

O que muda na prática (e o que não muda)

A partir de agora, os estudantes de Direito de Berkeley estão proibidos de usar IA para conceituar, esboçar, redigir, revisar, editar, traduzir ou para qualquer fim em situações de prova. Parece radical, não? Mas aqui está o pulo do gato: a escola não quer formar robôs. A missão, segundo Hoofnagle, é garantir que os calouros aprendam o básico da profissão: “como ler um caso, analisar um caso e escrever sobre ele de forma coerente.”

E a pergunta que não quer calar: qual é o valor de um advogado que não consegue usar seu próprio julgamento analítico para avaliar a resposta de uma IA? “Esse advogado tem muito pouco valor”, disparou o professor. É por isso que a política é tão focada: não se trata de ignorar a tecnologia, mas de dominá-la sem ser dominado por ela.

O dilema do mercado: escritórios já usam IA, e os alunos sabem disso

Enquanto a faculdade tenta equilibrar o ensino fundamental com as demandas do mercado, os próprios alunos já sentem a pressão. Hoofnagle revelou que os estudantes estão pedindo cursos sobre IA e descobrindo durante os estágios de verão que os grandes escritórios de advocacia já utilizam a tecnologia extensivamente. Startups como Harvey e Legora disputam ferozmente o mercado jurídico global de US$ 1 trilhão, e a Harvey, inclusive, oferece acesso gratuito a faculdades de Direito – a Universidade de Stanford, rival de Berkeley, já faz parte desse programa.

É um verdadeiro cabo de guerra: a academia precisa formar profissionais prontos para o futuro, mas sem pular etapas essenciais. A solução de Berkeley? Permitir que os instrutores adaptem a política para cursos específicos de IA, criando uma flexibilidade que reconhece a complexidade do assunto.

As brechas inevitáveis e o futuro do ensino

O próprio Hoofnagle admite que a política tem brechas. “Não há uma resposta limpa para isso”, disse ele, lembrando que até mesmo pesquisas em bases de dados jurídicas como Lexis e Westlaw agora vêm com resumos gerados por IA. A faculdade “obviamente não pode proibir a busca”. É um jogo de gato e rato, onde a tecnologia avança mais rápido que as regras.

E não pense que Berkeley é um caso isolado. A Universidade de Princeton, por exemplo, anunciou a maior mudança em seu código de honra em 133 anos: a partir de julho, todos os exames presenciais serão vigiados, citando o advento da IA como uma das razões. Em Berkeley, o número de casos de má conduta acadêmica aumentou, e a solução foi converter mais provas de casa para presenciais, usando softwares que bloqueiam o acesso à internet e às funções de copiar e colar.

“Você não pode se proteger contra tudo no mundo, mas há um sinal muito forte de que, se você cortar caminhos, no final o aluno pagará por isso quando tiver que fazer uma prova presencial”, concluiu Hoofnagle. A mensagem é clara: a tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas o verdadeiro valor de um profissional ainda reside em seu próprio conhecimento e capacidade de análise.

Deixe seu Comentário
0 Comentários

Privacidade e Cookies

Utilizamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa política.