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O conflito iniciado com o ataque do Hamas ao sul de Israel em 7 de outubro de 2023 completa 850 dias nesta segunda-feira (3) sob um clima de suspensão. A iminência de um ataque dos Estados Unidos — e possivelmente de Israel — ao regime islâmico do Irã mantém a região em alerta, enquanto diversos atores buscam reposicionamento ou simples sobrevivência.

Segundo a jornalista Miriam Sanger, que vive em Israel desde 2012, este conflito não se deixa compartimentar em capítulos. "Ele se move como uma sequência de peças de dominó: ao empurrar uma, todas as outras inevitavelmente se deslocam", escreveu em análise publicada no portal iG.

Tabuleiro regional em transformação

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Está em jogo o futuro do Hamas e a reconstrução de Gaza, o destino do Hezbollah e a possibilidade de um Líbano menos sequestrado por milícias, e a promessa sempre adiada de uma nova Síria, que assiste ao massacre de suas minorias. A mudança de regime no Irã, o papel ambíguo do Catar e a postura duvidosa da Arábia Saudita também são temas centrais e entrelaçados neste momento.

"Processos históricos de grande transformação raramente são suaves", analisa Sanger. "Se por um lado esse momento carrega destruição, medo e incerteza, por outro também pode ser entendido como um período de transição — doloroso, mas potencialmente formador da ordem regional."

Paralelo com o "ano-novo das árvores"

A data de hoje coincide com a celebração de Tu Bishvat, o "ano-novo das árvores" no calendário judaico. A tradição marca o momento em que o frio começa a perder força, o maior volume de chuvas já caiu e a seiva — invisível aos olhos — volta a circular nas árvores em Israel.

"Os frutos que um dia alimentarão a humanidade ainda não existem, mas sua existência futura está sendo nutrida agora", explica a jornalista, traçando um paralelo com a situação atual. "Pouco do que se vê inspira otimismo, mas algo está em gestação, longe do olhar público, abaixo da superfície do longo conflito."

Esperança em meio à incerteza

A crença de que transformações reais nascem de movimentos silenciosos, como a seiva que sobe, não elimina o sofrimento presente, mas oferece uma receita para enfrentá-lo, segundo a análise. Em tempos de suspensão, resta torcer para que os atores que empurram as peças do tabuleiro compreendam o peso de cada gesto.

"Para enxergar seus frutos, no entanto, precisaremos aguardar pelas próximas estações", conclui Miriam Sanger, autora e editora que iniciou carreira na Folha de S.Paulo e tem como desafio mostrar Israel em sua pluralidade desde que adotou o país.