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A Inertia Enterprises, startup do setor de energia de fusão nuclear, anunciou nesta terça-feira a assinatura de três acordos com o Laboratório Nacional Lawrence Livermore (LLNL), na Califórnia, para colaborar no desenvolvimento comercial de reatores de fusão baseados em laser. A parceria visa transformar em realidade comercial uma das tecnologias mais promissoras e complexas do setor, atualmente em fase experimental.

Os acordos incluem dois projetos de parceria estratégica e um acordo de cooperação para pesquisa e desenvolvimento. Como parte do negócio, a Inertia também licenciará quase 200 patentes do laboratório norte-americano. O objetivo conjunto é aprimorar os sistemas de laser e os alvos de combustível usados no processo, visando melhor desempenho e fabricação em escala.

Vantagem na corrida pela fusão comercial

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A parceria pode dar à Inertia uma vantagem significativa sobre concorrentes no competitivo mercado de fusão nuclear. O LLNL abriga a Instalação Nacional de Ignição (NIF), o único experimento no mundo que já demonstrou, em 2022, que uma reação de fusão controlada pode produzir mais energia do que a necessária para iniciá-la – um marco conhecido como "breakeven científico".

A Inertia, que surgiu com destaque em fevereiro após uma rodada de investimento Série A de US$ 450 milhões, é uma das startups mais capitalizadas da indústria. A empresa trabalha com um tipo de fusão chamado confinamento inercial, que gera as condições para a fusão comprimindo uma pastilha de combustível usando uma força externa – no caso, lasers de alta potência.

Como funciona a tecnologia a laser

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No NIF, 192 feixes de laser são disparados para dentro de uma grande câmara de vácuo, convergindo sobre um pequeno cilindro de ouro chamado "hohlraum". Esse cilindro contém uma pastilha de combustível revestida de diamante, do tamanho de uma bola de chumbo (BB).

Ao serem atingidos pelos lasers, o hohlraum é vaporizado e emite raios-X que bombardeiam a pastilha. O revestimento de diamante se transforma em plasma, que se expande e comprime o combustível de deutério e trítio em seu interior, iniciando a reação de fusão. Para que a tecnologia seja viável para a rede elétrica, esse processo complexo precisa ocorrer várias vezes por segundo.

De pesquisa bélica a esperança energética

O design do reator movido a laser foi teorizado pela primeira vez na década de 1960 como uma forma mais segura de pesquisar armas termonucleares, embora os cientistas também tenham reconhecido seu potencial para produção de energia. A construção do NIF começou em 1997, e foram necessários 25 anos para atingir o ponto de breakeven.

Várias startups, incluindo Inertia, Xcimer, Focused Energy e First Light, estão tentando transformar o conceito em usinas de energia comerciais. Como os lasers do NIF são baseados em tecnologia antiga, a esperança é que novos lasers sejam mais eficientes, reduzindo a energia necessária para cada ignição e tornando economicamente viável uma usina comercial.

Ligação histórica entre cientista e experimento

A colaboração entre a Inertia e o LLNL tem uma base pessoal. Annie Kritcher, cofundadora e cientista-chefe da Inertia, ajudou a projetar o experimento bem-sucedido no NIF que alcançou o breakeven científico. A Lei CHIPS and Science de 2022 abriu caminho para que ela fundasse uma empresa enquanto mantinha sua posição no laboratório nacional.

Os acordos firmados representam um passo concreto na ponte entre a pesquisa de ponta financiada pelo governo e a iniciativa privada, na corrida para desenvolver uma fonte de energia limpa, segura e praticamente inesgotável.