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Centenas de trabalhadores do setor de tecnologia assinaram uma carta aberta pedindo ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Pentágono) que retire sua designação da empresa de inteligência artificial Anthropic como um "risco à cadeia de suprimentos". O documento também exige que o Congresso intervenha para examinar se o uso dessas autoridades extraordinárias contra uma empresa de tecnologia americana é apropriado.

A ação ocorre após uma disputa pública entre o Pentágono e a Anthropic, que na semana passada se recusou a dar acesso irrestrito de seus sistemas de IA para uso militar. As negociações fracassaram porque a empresa estabeleceu duas "linhas vermelhas": não permitir que sua tecnologia fosse usada para vigilância em massa de cidadãos americanos nem para alimentar armas autônomas que tomassem decisões de mira e disparo sem um humano no controle.

Resposta do governo e ameaças de retaliação

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Em resposta à recusa do CEO da Anthropic, Dario Amodei, o presidente Donald Trump dirigiu, na sexta-feira, que agências federais parem de usar a tecnologia da empresa após um período de transição de seis meses. Pete Hegseth, oficial do Pentágono envolvido nas negociações, ameaçou designar formalmente a Anthropic como um risco à cadeia de suprimentos – uma designação normalmente reservada a adversários estrangeiros, que colocaria a empresa em uma lista negra, impedindo-a de trabalhar com qualquer agência ou empresa que faça negócios com o Departamento de Defesa.

Em uma publicação na rede social X, Hegseth escreveu: "Efetivo imediatamente, nenhum contratante, fornecedor ou parceiro que faça negócios com as forças armadas dos Estados Unidos pode conduzir qualquer atividade comercial com a Anthropic". No entanto, uma publicação em rede social não torna automaticamente a empresa um risco. O governo precisa completar uma avaliação de risco e notificar o Congresso antes que parceiros militares tenham que cortar laços com a empresa.

Preocupação do setor e precedente perigoso

A carta aberta, com signatários de grandes empresas de tecnologia e capital de risco como OpenAI, Slack, IBM, Cursor e Salesforce Ventures, argumenta que a atitude do governo é uma retaliação clara e severa. "Quando duas partes não conseguem chegar a um acordo, o curso normal é seguir caminhos separados e trabalhar com um concorrente", diz o texto. "Esta situação estabelece um precedente perigoso. Punir uma empresa americana por se recusar a aceitar mudanças em um contrato envia uma mensagem clara para todas as empresas de tecnologia da América: aceite quaisquer termos que o governo exigir, ou enfrente retaliação."

Além da preocupação com a retaliação, muitos no setor temem o uso indevido da IA pelo governo. Boaz Barak, pesquisador da OpenAI, escreveu em uma publicação que bloquear governos de usar IA para vigilância em massa também é sua "linha vermelha pessoal" e "deveria ser a de todos nós".

Consequências e próximos passos

Pouco depois do ataque público de Trump à Anthropic, a OpenAI anunciou ter fechado seu próprio acordo para que seus modelos sejam implantados em ambientes classificados do Pentágono. Sam Altman, CEO da OpenAI, disse na semana passada que sua empresa tem as mesmas linhas vermelhas que a Anthropic.

A Anthropic afirmou, em um post de blog, que considera a designação de risco "legalmente infundada" e que "contestará qualquer designação de risco na cadeia de suprimentos nos tribunais". O desfecho do caso pode definir os limites da relação entre o governo dos EUA e a indústria de inteligência artificial em desenvolvimento.