Em uma reviravolta que pegou muitos de surpresa, o governo de Donald Trump está discutindo a possibilidade de implementar uma supervisão federal sobre o lançamento de novos modelos de inteligência artificial (IA). A informação, divulgada pelo New York Times nesta segunda-feira, sugere que uma ordem executiva pode estar a caminho para criar um grupo de trabalho com executivos de tecnologia e autoridades públicas.
Mas o que levou a administração, conhecida por sua postura de desregulamentação, a considerar esse movimento? A resposta pode estar no crescente poder e nos riscos associados a sistemas como o Mythos, da Anthropic, que acenderam alertas entre especialistas em segurança nacional.
O plano que divide opiniões: inovação ou freio?
Segundo fontes próximas às discussões, a ideia é que o grupo avalie os riscos antes que novos modelos de IA cheguem ao mercado. A mudança representa uma guinada significativa na política de Trump, que em seu segundo mandato priorizou a inovação e a desregulamentação para não perder a corrida contra a China.
No entanto, a reação entre especialistas foi imediata e dividida. Enquanto alguns aplaudem a medida como necessária, outros a veem como um retrocesso perigoso.
"Uma ideia terrível": o alerta dos críticos
Daniel Castro, presidente do think tank ITIF, não poupou críticas. Em uma série de posts no X, ele classificou a potencial ordem executiva como uma "ideia terrível". Para ele, a abordagem abraça o "princípio da precaução" de forma excessiva, exigindo que empresas peçam permissão ao governo para inovar.
"Isso significaria que as empresas precisam de permissão do governo para inovar. Isso inverte o padrão de construir livremente para pedir primeiro", escreveu Castro. Ele alertou que a inovação passaria a "se mover na velocidade de Washington, não do Vale do Silício".
Adam Thierer, do R Street Institute, foi na mesma linha, argumentando que qualquer "vetagem" prévia de modelos de IA seria equivalente a um regime de licenciamento, algo que não deveria ser feito por decreto presidencial. "Ordens executivas têm seu lugar, mas o Congresso precisa ajudar a estabelecer uma estrutura mais estável", afirmou.
O outro lado: "Notícia bem-vinda" para proteger valores
Do outro lado do debate, Janet Vestal Kelly, da Alliance for a Better Future, chamou a potencial medida de "notícia bem-vinda". Para ela, a IA é a tecnologia mais poderosa que o mundo já viu e, se deixada solta, as grandes empresas de tecnologia "atropelarão crianças, trabalhadores e os valores americanos".
"Com a abordagem certa, os EUA podem ter uma IA que proteja empregos, crianças e a nação, e ainda vencer a corrida contra a China", disse Kelly.
Chris McGuire, do Council on Foreign Relations, também viu a mudança como um "pivô regulatório necessário", mas alertou que a supervisão precisa vir acompanhada de requisitos de segurança cibernética e física para os laboratórios de IA.
O risco político e a dúvida sobre o processo
Conor Grennan, consultor de IA e ex-arquiteto-chefe de IA da NYU, levantou questões espinhosas sobre o processo de "vetagem". "Quem leva a culpa se algo der errado — a IA ou os revisores? E se um líder de IA criticar Trump, esse modelo de repente se torna 'perigoso demais'?", questionou em um post no LinkedIn.
Eli Dourado, do instituto de pesquisa Astera, lembrou que uma revisão obrigatória antes do lançamento pode colidir com a doutrina constitucional de "restrição prévia" da Primeira Emenda, que impede o governo de censurar a fala antes que ela ocorra. "Parece improvável que isso vingue", concluiu.
O que esperar daqui para frente?
O consenso entre muitos analistas é que, embora a supervisão seja necessária, ela não deve ser decidida por decreto. Taylor Barkley, do Abundance Institute, classificou a proposta como um "grande passo para trás" e pediu que o Congresso esclareça as regras por meio de uma estrutura nacional de IA. Thomas Woodside, do Secure AI Project, acrescentou que a fiscalização precisa ser contínua, e não uma aprovação única, já que os sistemas são frequentemente atualizados.
O governo Trump, que começou seu segundo mandato eliminando uma ordem executiva sobre IA da era Biden, agora se vê diante de um dilema: como equilibrar a corrida pela inovação com a necessidade de proteger a sociedade de riscos reais e iminentes? A resposta pode definir o futuro da tecnologia nos Estados Unidos — e no mundo.