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Marion Marguerite Stokes, uma bibliotecária e ativista americana, dedicou mais de 33 anos de sua vida a gravar ininterruptamente a programação de telejornais dos Estados Unidos. Ela faleceu em 14 de dezembro de 2012, deixando um legado estimado em 71 mil fitas VHS e Betamax que capturaram a cobertura de eventos históricos e do cotidiano.

O projeto começou em 1979, durante a Crise dos Reféns no Irã, quando Stokes percebeu que a narrativa jornalística televisiva, crucial para a compreensão pública dos fatos, corria o risco de se perder. Convencida de seu valor histórico, ela iniciou uma missão para preservar um registro bruto e inalterado da era do noticiário 24 horas.

Uma operação caseira monumental

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Para executar seu plano, Stokes instalou múltiplos videocassetes em sua casa, operando até oito aparelhos simultaneamente para gravar canais como CNN, Fox News, MSNBC e C-SPAN. Ela trocava as fitas a cada poucas horas, mantendo as gravações 24 horas por dia, todos os dias, por mais de três décadas.

Seu foco era exclusivamente o noticiário. "Ela não estava interessada em programas ou novelas, mas em capturar a forma como o noticiário moldava a percepção pública dos acontecimentos", conforme descrito em reportagem. A última fita gravada por Stokes registrou a cobertura do massacre de Sandy Hook, em dezembro de 2012.

Doação e digitalização para a posteridade

Após sua morte, seu filho, Michael Metelits, doou toda a coleção – que ocupou vários contêineres – para o Internet Archive. A organização sem fins lucrativos assumiu o desafio de digitalizar e catalogar o material, um processo complexo e contínuo devido ao volume e à fragilidade das mídias magnéticas originais.

O acervo é considerado um dos maiores e mais completos arquivos privados da história da televisão, abrangendo desde eleições presidenciais, protestos e guerras até comerciais e programas locais.

Legado e reconhecimento

A vida e o trabalho de Marion Stokes foram documentados no filme "Recorder: The Marion Stokes Project" (2019), dirigido por Matt Wolf. Hoje, sua coleção serve como uma ferramenta vital para pesquisadores e jornalistas, permitindo revisitar como eventos globais foram narrados em tempo real.

Mais do que um amontoado de fitas, o arquivo se tornou uma cápsula do tempo da sociedade contemporânea, preservando para as futuras gerações a matéria-prima da construção da história recente.