Bill Gurley, um dos mais influentes investidores de risco do Vale do Silício nas últimas três décadas, está lançando um livro e uma fundação com um objetivo claro: incentivar as pessoas a correrem atrás de seus sonhos profissionais. A "Running Down a Dream Foundation" concederá 100 bolsas anuais de US$ 5 mil para indivíduos que precisam de um suporte financeiro para dar um salto em suas carreiras.
O livro, intitulado "Runnin’ Down a Dream", argumenta que seguir a paixão não é apenas um conselho romantizado, mas uma estratégia competitiva urgente em um mercado de trabalho em rápida transformação pela inteligência artificial. A iniciativa surge após uma pesquisa conduzida com a Wharton School revelar que aproximadamente 60% das pessoas fariam coisas diferentes se pudessem recomeçar suas carreiras.
Resposta ao arrependimento e ao medo financeiro
Gurley ficou chocado com o alto índice de arrependimento profissional identificado na pesquisa. "Daniel Pink fez muito trabalho sobre o que ele chama de arrependimentos da inação — o que mais pesa nas pessoas conforme envelhecem é o que elas não tentaram, a pedra deixada para trás", explicou o ex-sócio da Benchmark, conhecido por investimentos early-stage em empresas como Uber, Zillow e Stitch Fix.
Questionado sobre como seu conselho se aplica a quem vive de salário em salário, Gurley foi pragmático: "Eu não encorajaria você a pedir demissão. Encorajaria você a usar seu tempo livre para construir um pequeno documento no seu telefone sobre qual poderia ser o seu 'negócio'". A fundação, segundo ele, é justamente a resposta prática para esse cenário, oferecendo o capital semente para quem já traçou um plano mas precisa de um empurrão financeiro.
IA como superpoder, não como ameaça
Gurley acredita que a inteligência artificial redefine radicalmente as regras do jogo profissional. Para quem segue um caminho tradicional e "parece uma engrenagem padronizada", a IA é assustadora. No entanto, para quem está "traçando seu próprio caminho", a tecnologia se torna uma superpotência.
"O aprendizado nunca foi mais fácil do que agora, em toda a história do mundo", afirmou. "Se você está correndo em direção a ela, se está se tornando a pessoa mais consciente da IA em sua área, essa coisa não é nada além de uma superpotência."
Crítica à regulação e visão sobre a cultura de trabalho
O investidor também comentou sobre o atual debate regulatório da IA, expressando ceticismo. "As pessoas que mais imploram por regulação na IA são as próprias empresas, e isso me deixa desconfiado", disse, alertando para o risco de o setor nos EUA ficar enredado em regulamentações estaduais enquanto modelos chineses operam livremente.
Sobre a adoção, por alguns fundadores, de uma cultura de trabalho intensa (conhecida como "996"), Gurley se mostrou favorável. "Eu meio que amo isso, honestamente", declarou, contrastando com o que chamou de acomodação do Vale do Silício pós-pandemia. Ele equiparou a dedicação de um fundador à de um atleta de elite, desde que movida por paixão genuína.
Conselhos práticos e próximos passos
Para quem busca mentoria, Gurley aconselha a buscar pessoas "dois níveis abaixo" do alvo inicial considerado. "Seja a primeira pessoa a ligar para elas e pedir que sejam mentoras, porque elas ficarão lisonjeadas", recomendou, criticando a abordagem de "disparar para o alto" com contatos inatingíveis.
As inscrições para as bolsas da "Running Down a Dream Foundation" serão abertas em breve, com os primeiros 100 beneficiários sendo anunciados ainda em 2025. A entrevista completa com Bill Gurley será publicada na terça-feira no podcast "StrictlyVC Download" da TechCrunch.