Cobertura do calor na TV ignora drama de trabalhadores essenciais, alerta colunista
Profissionais como pedreiros e catadores enfrentam risco de morte sem pausas ou proteção adequada durante expedientes.
Enquanto a TV aberta brasileira repete a cada verão a abordagem de mostrar banhistas em praias e piscinas para ilustrar as ondas de calor, o verdadeiro drama permanece invisível: a situação de trabalhadores essenciais que atuam sob sol intenso sem proteção adequada. A crítica é feita pelo jornalista Matheus Pichonelli, que aponta a necessidade de a cobertura midiática focar nos profissionais que mantêm as cidades funcionando em condições extremas.
Segundo o colunista, a abordagem tradicional tem um "erro de saída", pois transforma em drama uma situação – ir à praia ou à piscina – que é, na verdade, uma solução para o calor. O drama real, argumenta, está nos pedreiros, lixeiros, catadores de material reciclável e vendedores ambulantes, que não têm o luxo de um mergulho para se refrescar e trabalham sob risco à saúde.
Poder público começa a agir, mas medidas são insuficientes
Diante de uma das maiores ondas de calor já registradas, algumas iniciativas pontuais de ajuste de jornadas surgiram. Em Cuiabá (MT), a prefeitura reorganizou os turnos de servidores da manutenção e limpeza urbana, concentrando expedientes no período da manhã ou no fim da tarde. Trabalhadores dos Correios também conseguiram, via ação judicial, a antecipação ou ajuste de turnos quando as temperaturas ultrapassam os 30°C.
A recomendação básica, nem sempre cumprida, é que empregadores normalizem pausas frequentes e garantam acesso a água potável, locais sombreados e vestimenta adequada. Sindicatos e órgãos de saúde pressionam para que tarefas intensas, como na construção civil, sejam realizadas fora do pico de calor, com pausas mais extensas próximas ao meio-dia.
Debate avança no Ministério e na COP30
O tema ganhou relevância institucional. No Ministério do Trabalho e Emprego, está em curso um debate para revisar as normas de segurança e incluir explicitamente a proteção contra calor extremo como item de segurança básica. A urgência do assunto foi destacada até na COP30, conferência do clima da ONU realizada em Belém (PA).
No evento, o presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo, Adilson de Araújo, lançou a proposta do "Plano Verão". O programa prevê alertas de calor, pausas obrigatórias monitoradas e acompanhamento diário da temperatura para proteger trabalhadores que enfrentam calor extremo em suas jornadas.
Trabalhadores informais são os mais vulneráveis
A situação se torna mais crítica entre os trabalhadores informais, como os catadores de recicláveis. Para esses grupos, que são os que mais sofrem com o calor, não há empregador para ajustar horários ou fornecer equipamentos de proteção. Eles próprios precisam gerenciar seus trajetos – "o famoso vai pela sombra" –, pois a sobrevivência econômica depende do trabalho diário. Parar significa ver "os bolsos esvaziarem", destaca Pichonelli.
Para o colunista, a cobertura da crise climática deve migrar do clichê dos banhistas para focar nas condições desses trabalhadores e nas ações – ou na falta delas – do poder público para mitigar os impactos do calor extremo na saúde e na vida da população mais vulnerável.
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