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A coloração vibrante de alguns animais na natureza, frequentemente associada a perigo, não é um indicador confiável de risco, segundo análise de especialista. O fenômeno do aposematismo, onde cores chamativas alertam sobre toxicidade, é real, mas é frequentemente copiado por espécies inofensivas através do mimetismo, criando uma armadilha visual para observadores.

Em entrevista ao Portal iG, a bióloga Patrícia Farias de Souza, mestre e doutoranda em Dinâmica dos Oceanos e da Terra pela Universidade Federal Fluminense (UFF), desmistifica crenças populares. Ela afirma que a relação entre cor e perigo é complexa e que a aparência raramente conta a história completa sobre o comportamento de um animal.

Mecanismo de defesa e suas imitações

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Patrícia explica que o aposematismo é um mecanismo de defesa evolutivo onde animais usam padrões visuais marcantes para sinalizar aos predadores que são venenosos, agressivos ou de gosto desagradável. "Em muitas espécies a coloração realmente pode ser um indicativo de perigo", afirma a bióloga.

No entanto, ela ressalta que essa não é uma regra universal. “Em vários grupos animais, a cor não tem relação direta com o risco, o que faz com que algumas crenças populares simplifiquem demais fenômenos biológicos complexos”, disse Patrícia. O problema surge com o mimetismo, onde espécies inofensivas evoluem para se parecer com as perigosas, enganando tanto predadores quanto humanos.

Casos específicos: ursos, cobras, escorpiões e tubarões

A especialista analisou grupos animais comuns em encontros potencialmente perigosos. Sobre o ditado americano que associa a cor dos ursos ao comportamento ("marrom, deite; preto, reaja; branco, adeus"), ela esclarece que ele "mistura informações reais com simplificações".

Existem diferenças comportamentais entre o urso-pardo (mais defensivo), o urso-negro (que geralmente evita confronto) e o urso-polar (predador ativo), mas a cor não deve orientar a reação. “O mais importante é não reagir com base na cor, e sim no comportamento. A recomendação é sempre manter distância, não correr e seguir os protocolos específicos de segurança locais”, orienta.

No Brasil, onde existem mais de 400 espécies de cobras, o problema do mimetismo é evidente, especialmente entre corais verdadeiras (peçonhentas) e falsas (inofensivas). “O público não deve tentar identificar risco apenas pela cor ou padrão, porque muitas espécies peçonhentas têm imitadoras inofensivas”, alerta Patrícia. A orientação é manter distância e acionar a vigilância ambiental ou o Corpo de Bombeiros se o animal estiver em área urbana.

Para escorpiões, a cor também é um mau indicador. A espécie mais perigosa no país, o Tityus serrulatus, é amarelada, mas outras espécies de cor clara são menos tóxicas. A prevenção eficaz envolve manter ambientes limpos, evitar acúmulo de entulho e usar luvas ao manusear objetos guardados.

Em ambientes marinhos, com tubarões, o fator determinante não é a cor. “O comportamento do animal, visibilidade da água, presença de presas e atividades humanas influenciam muito mais do que a aparência ou cor da espécie”, explica a bióloga. Ela aconselha observar o ambiente, evitar áreas de pesca e respeitar orientações de salva-vidas.

Recomendação geral: comportamento acima da aparência

Questionada sobre a recomendação geral para encontros com animais selvagens, Patrícia Farias de Souza foi enfática: “A cor pode ser bonita, chamativa ou assustadora, mas ela raramente é um guia totalmente seguro para medir risco”.

A bióloga reforça que a avaliação de risco deve priorizar o comportamento observado do animal e o contexto do ambiente, e não apenas seus sinais visuais. A melhor conduta, de forma geral, é manter uma distância segura, evitar movimentos bruscos e procurar informações de órgãos especializados sobre a fauna local.