O ano de 2026 se inicia em um cenário mundial marcado por instabilidade, transição de poder e o enfraquecimento das instituições multilaterais, segundo análise do ex-embaixador Cesário Melantonio Neto. O autoritarismo, o populismo e o nacionalismo têm crescido, minando a democracia, o estado de direito e a defesa dos direitos humanos em diversas regiões.
Cesário Melantonio Neto, que serviu como embaixador do Brasil no Irã, Turquia, Egito, Azerbaijão, Grécia e Cuba, além de ter ocupado postos diplomáticos em Roma, Frankfurt, Paris, México e Madri, avalia que o mundo vive uma "fase de transição e muita instabilidade e insanidade". A multipolaridade avança, com China, Rússia, Índia e Brasil ganhando espaço, enquanto os Estados Unidos veem seu poder unilateral de controle global diminuir.
Europa com visão "arcaica" e temor de Trump
O diplomata critica a postura europeia, que insiste em enxergar a Rússia e a China como seus maiores antagonistas, uma visão que classifica como "arcaica e retrógrada". Ele cita como exemplo a questão da Groenlândia e da Dinamarca e aponta que o continente teme enfrentar o ex-presidente dos EUA, Donald Trump. "A Europa busca se manter relevante apesar de inúmeras e crescentes divisões", escreveu Melantonio Neto.
O aumento do autoritarismo nos últimos anos é apontado como um dos fatores centrais para o declínio democrático. "Vamos ter de escolher entre a civilização ou a barbárie", alerta o ex-embaixador, usando o conflito em Gaza como exemplo do que chama de "amortecimento da consciência crítica mundial". Regimes totalitários e autoritários estariam ganhando espaço sem respeito ao direito internacional, como nos casos de ataques ao Irã e à Venezuela.
Democracias sob pressão e segurança global frágil
O texto também aborda a deriva dentro de nações consideradas democráticas. "Alguns países que se diziam uma democracia, como os Estados Unidos, já não rezam mais pela mesma cartilha", afirma. A mentira e o "despudor" estariam sendo vendidos como verdades com apoio de parte da mídia, em referência ao governo Trump.
A segurança global é descrita como frágil, com conflitos regionais na Ucrânia, Gaza, Irã, Palestina e Venezuela, além de tensões na Ásia. Nem a África escapa dessa situação de instabilidade. Paralelamente, a economia global sofre com o aumento da criminalidade, da desigualdade, do desemprego e da inflação.
Temas estruturais como mudança climática, migração, tecnologia e inteligência artificial estariam avançando mais rápido do que a capacidade política das nações de regulá-los e endereçá-los de forma coordenada.
Perspectivas difíceis para o ano
Diante desse quadro, o ex-diplomata conclui que as perspectivas para 2026 "não são infelizmente animadoras". O mundo estaria "por demais fragmentado, competitivo e incerto", vivendo uma "era da incerteza" onde a irracionalidade e a ganância crescentes tornam a solução dos conflitos existentes uma tarefa extremamente difícil.
A análise, publicada originalmente no portal iG, serve como um alerta sobre os riscos geopolíticos e a erosão da ordem internacional baseada em regras, que definiram o período pós-Guerra Fria.