Imagine apostar em uma empresa de chips que ninguém entendia, esperar quatro anos e vê-la valer US$ 6,9 bilhões. Não é sorte. É estratégia.
Nicolas Sauvage, fundador do braço de venture capital da gigante japonesa TDK, revelou em evento do StrictlyVC, em San Francisco, o segredo por trás de seus investimentos mais certeiros: foco nas partes “chatas” da inteligência artificial.
O chip que ninguém queria — e que mudou tudo
Em 2020, bem antes do hype do ChatGPT, Sauvage escreveu um cheque para a Groq. A startup, fundada por Jonathan Ross — um dos engenheiros que criaram os processadores do Google —, estava obcecada por um problema específico: inferência. O trabalho pesado de computação que acontece toda vez que um modelo de IA responde a uma pergunta.
Enquanto o mercado corria atrás de treinar modelos maiores, Sauvage viu uma assimetria. “Você não pode remover uma parte e esperar que ainda funcione”, disse ele sobre o design minimalista do chip da Groq. O resultado? Demanda explosiva por inferência, que só cresce com cada novo aplicativo e modelo de IA.
“Não sou japonês. Não falo japonês. Não moro em Tóquio.”
A história de Sauvage na TDK é tão improvável quanto seus investimentos. Francês, ele entrou na empresa por meio de uma aquisição no Vale do Silício. Depois de assistir a duas palestras em Stanford — uma defendendo o corporate venture capital, outra listando todos os motivos pelos quais ele falha —, ele decidiu ignorar a hierarquia e vender a ideia diretamente para a cúpula da TDK no Japão.
“Me recusei a aceitar um ‘não’ como resposta”, contou ele. A autorização veio. E com ela, um fundo de US$ 500 milhões distribuídos em quatro fundos, com uma única missão: descobrir qual será a próxima grande novidade para a TDK — e o que pode matá-la.
O portfólio que virou tendência
O portfólio de Sauvage está repleto de tecnologias que hoje são o centro das atenções no Vale do Silício: transformadores de estado sólido para redes elétricas, baterias de sódio-enxofre para data centers e químicas alternativas que evitam a fragilidade geopolítica do lítio e do cobalto.
A disciplina é sempre a mesma: identificar o gargalo daqui a quatro anos e encontrar os fundadores que já estão trabalhando nele.
Robôs que não tentam ser humanos — e CPUs que voltam com tudo
Para o futuro, Sauvage aposta em IA física — mas não em robôs genéricos. Ele investe em máquinas com funções ultraespecíficas. A Agility Robotics, por exemplo, faz robôs que só sabem mover coisas de um lugar para outro em armazéns com falta de mão de obra. Já a suíça ANYbotics constrói robôs robustos para ambientes perigosos demais para humanos.
Outra aposta ousada: a renaissance das CPUs. Enquanto GPUs dominam o treinamento de modelos e chips de inferência como o da Groq aceleram as respostas, Sauvage argumenta que as CPUs — mais flexíveis e melhores para lógica de decisão — serão essenciais para orquestrar agentes de IA que executam dezenas de tarefas simultâneas.
O desafio chinês e a próxima fronteira
Um relatório recente da Eclipse Ventures acendeu um alerta em Sauvage: a China está comprimindo o ciclo de design, construção e teste de hardware físico com ajuda de IA — um fenômeno chamado de “vibe manufacturing”. Enquanto isso, o Ocidente ainda não consegue acompanhar o ritmo.
Para ele, o próximo gargalo é a destreza. Modelos de IA estão evoluindo rápido o suficiente para tornar a IA física inevitável. O que falta é a fluência física para acompanhar. “Os países e empresas que descobrirem como iterar em átomos tão rápido quanto outros iteram em código terão uma vantagem manufatureira imensa.”
E é exatamente nessa onda que Sauvage está surfando com a TDK Ventures hoje. O futuro da IA não está no brilho dos grandes modelos — está nos detalhes que ninguém quer olhar.