Era uma madrugada como qualquer outra na Flórida Central. Yeneshia Thomas, de 42 anos, estava em casa quando seu celular vibrou com um e-mail inesperado. Eram 12h30 da manhã de sábado. A mensagem era curta e brutal: a Spirit Airlines estava fechando as portas.
“Nós todos pensamos: ‘Não. Até a empresa nos enviar um e-mail, não acreditamos’”, contou a aeromoça, referindo-se à reação inicial dela e de seus colegas. A esperança era que os executivos conseguissem um resgate federal de US$ 500 milhões. Mas as negociações fracassaram.
O e-mail que destruiu 17 mil vidas
Às 3h da manhã, a Spirit Airlines anunciou oficialmente que encerraria as operações “com efeito imediato”. Todos os voos foram cancelados. Para Thomas e cerca de 17 mil outros funcionários, foi um soco no estômago. Ela havia terminado seu turno horas antes, sem saber que seria o último.
“Isso partiu o coração de muita gente”, desabafou. Alguns colegas estavam na estrada e tiveram que encontrar passagens em outras companhias para voltar para casa. A empresa e o sindicato estão ajudando na transição, mas a ferida ainda está aberta.
“É como se seu namorado estivesse te traindo”
Thomas fez uma comparação dolorosa para descrever o sentimento de traição: “Parece que você está em um relacionamento e seu namorado está te traindo, e todo mundo está vendo, mas você não sabia. Você descobre pela internet.”
A humilhação não parou por aí. No sábado, ela recebeu outro e-mail: estava proibida de usar o uniforme. Uma colega que não havia lido a mensagem tentou passar pela segurança do aeroporto e foi barrada por um agente da TSA, que ordenou: “Tire seu uniforme.”
“Estamos todos atordoados. Tipo: ‘O que aconteceu?’ Estávamos indo bem. Estávamos entregando o trabalho. Por que ninguém disse nada?”, questionou Thomas.
Os sinais que ninguém quis ver
Apesar do choque, Thomas admite que os sinais estavam lá. Voos de rotina foram cancelados com pouco aviso na sexta-feira. A Spirit Airlines enfrentava ventos turbulentos há anos: duas falências, uma fusão fracassada com a JetBlue, demissões, cortes salariais e o aumento dos preços do combustível de aviação devido à guerra entre EUA e Israel contra o Irã.
Thomas estava entre os funcionários que foram demitidos em dezembro. Ela retornou ao trabalho em março, mas com um corte no salário. “Eu tinha esperanças de que íamos conseguir, porque eles nos chamaram de volta”, disse.
O que os passageiros vão perder
Apesar do fim trágico, Thomas guarda boas lembranças. “No final, tínhamos um trabalho enorme. Levar todo mundo do ponto A ao ponto B era nosso maior objetivo, e fizemos isso com segurança e conforto.”
Ela se emociona ao lembrar dos passageiros: “No minuto em que veem o uniforme, as pessoas vêm até mim e dizem: ‘Eu amo a Spirit Airlines. Eu viajo sempre para ver meus netos.’ Aquilo me fazia sentir tão bem.”
O vínculo com os colegas também era forte: “É como uma grande família. Você pode entrar em um avião com alguém que nunca viu na vida, mas antes de descer, você sabe a vida inteira dela.”
Thomas alerta que os passageiros sentirão falta da opção econômica que a Spirit oferecia, especialmente com o aumento dos preços das passagens. “Alguém acabou de me mandar uma mensagem dizendo: ‘O que vou fazer? Agora tenho que comprar uma passagem de US$ 700.’”
O colapso da Spirit Airlines não é apenas um balanço financeiro. É a história de 17 mil pessoas que perderam o emprego, a identidade e, para muitos, o único meio de voar para perto de quem amam. O céu ficou mais caro e mais solitário.