Enquanto o mercado de assistentes de código ferve com a notícia de que a rival Cursor pode ser comprada pela SpaceX por impressionantes US$ 60 bilhões, uma pergunta ecoa no Vale do Silício: a Replit, pioneira no setor, também está à venda?
A resposta, vinda direto do fundador e CEO Amjad Masad, é um sonoro "não" — e ele tem os números para provar. Em um evento exclusivo do TechCrunch em São Francisco, Masad detalhou por que sua empresa, construída ao longo de uma década, está trilhando um caminho radicalmente diferente.
O segredo está nas margens (e elas são positivas)
Enquanto a Cursor opera com margens brutas negativas de 23%, queimando dinheiro para crescer, a Replit adotou uma abordagem mais racional. "Estamos com margens positivas há mais de um ano", revelou Masad. A empresa saltou de US$ 2,8 milhões em receita em 2024 para uma impressionante projeção de US$ 1 bilhão em receita anualizada.
Mas o que explica essa diferença brutal? O segredo está no público-alvo. Enquanto a Cursor foca em desenvolvedores experientes, a Replit mira os 85% da população que nunca programaram — e cobra um pouco mais caro por uma solução completa.
"Fornecemos uma plataforma de ponta a ponta: do prompt até um aplicativo implantado e escalável, com segurança, bancos de dados e migração inclusos", explicou Masad. "Construímos esses primitivos ao longo de 10 anos."
A receita que não vai embora
Um dos maiores medos do mercado era que os protótipos criados na Replit fossem eventualmente "refeitos" pelas empresas em suas próprias infraestruturas, gerando um enorme churn (cancelamento). A realidade, no entanto, é oposta.
Masad revelou que a retenção líquida de receita chega a 300% em alguns casos. "Quando engenheiros ficam nervosos e tentam recriar o app na própria stack, geralmente pioram", disse ele. Empresas como a Bain & Company já substituíram ferramentas consagradas como Tableau e Power BI pela combinação Replit + Databricks.
E os números de retorno são de outro planeta: clientes que gastam US$ 100 mil por mês na plataforma relatam gerar entre US$ 2 milhões e US$ 10 milhões em retorno. "Não temos muito arrependimento de gastos", garantiu Masad.
A briga com a Apple: "Isso é uma mentira"
Se os negócios vão bem, a relação com a Apple é um campo minado. A Replit está há meses no "purgatório da App Store", com suas atualizações bloqueadas. O motivo oficial? A Apple alega que o app baixa código novo no dispositivo após a aprovação, violando suas diretrizes.
A resposta de Masad foi direta e surpreendente: "Isso é uma mentira. E podemos provar isso na Justiça, se necessário."
Para ele, o verdadeiro motivo é outro: a Replit permite que usuários criem aplicativos iOS diretamente pela plataforma, ameaçando o monopólio da Apple sobre o que entra na loja. "Havia gráficos circulando mostrando quantos apps estavam entrando na App Store através de nós. Achamos que a Apple se sente ameaçada por isso", afirmou.
Apesar da tensão, Masad diz esperar uma solução colaborativa: "Sou fã da Apple e adoraria construir algo grandioso juntos." Mas a ameaça de um processo judicial está posta.
O futuro: investindo nos próprios clientes
Olhando adiante, a Replit pode seguir os passos de Nvidia e OpenAI e começar a investir diretamente em startups que nasceram em sua plataforma, em troca de equity. A ideia não é apenas teoria: Masad já investiu pessoalmente em algumas delas.
Um caso emblemático é o da Magic School: um professor que, durante a pandemia, aprendeu a programar na Replit e criou um app de IA para reduzir a carga de trabalho de outros professores. Resultado: US$ 20 milhões no primeiro ano. Outras empresas nascidas na plataforma já são avaliadas em US$ 500 milhões.
"O empreendedorismo que está acontecendo na Replit agora é genuinamente empolgante", disse Masad. "Em breve, nossos clientes estarão gerando mais receita do que nós."
Em um mercado onde a pressão para vender é imensa, a Replit prova que, às vezes, o caminho mais difícil — o da independência — pode ser o mais recompensador.