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A apresentadora e empresária Oprah Winfrey, 70, e a médica e pesquisadora Dra. Ania Jastreboff, diretora do Centro de Pesquisa em Obesidade de Yale, lançam o livro "Enough: Your Health, Your Weight, and What It's Like to Be Free". A obra marca uma revolução cultural no entendimento da obesidade, tratando-a como uma doença crônica e não mais como uma falha de caráter ou falta de força de vontade.

O ponto de virada na parceria ocorreu em maio de 2024, durante uma conversa de quatro horas no estúdio de podcast de Winfrey em Montecito, Califórnia. Após a discussão sobre a ciência por trás da obesidade e dos medicamentos GLP-1, Winfrey se voltou para Jastreboff e disse: "Você deveria escrever um livro, e eu vou ajudá-la". O título "Enough" (que significa "suficiente" em inglês) surgiu em um momento de insight da médica, que anotou a palavra em um Post-It.

Da culpa à ciência: uma jornada de décadas

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A relação pública de Oprah Winfrey com o peso é longa e emblemática. Em 1988, em um episódio famoso de seu talk show, ela empurrou um carrinho vermelho contendo 67 libras (cerca de 30 kg) de gordura animal, simbolizando o peso que havia perdido após uma dieta líquida de quatro meses que a deixou faminta. Na época, ela declarou: "Se você pode acreditar em si mesmo... você pode conquistá-lo", reforçando a narrativa de que a perda de peso era uma questão de força de vontade.

Quase quatro décadas depois, sua perspectiva mudou radicalmente. Em setembro de 2023, ela admitiu em uma gravação para a CNN que hesitou antes de tomar um medicamento GLP-1 injetável, temendo que fosse o caminho "fácil" para perder peso antes de uma cirurgia no joelho. Ela usou a medicação, mas em janeiro de 2024, resolveu parar para "ver se consigo ficar sem ela".

O "ponto do suficiente" e a ação dos GLP-1

A Dra. Ania Jastreboff explica que a palavra "enough" serve como um mantra para substituir o estigma. Ela descreve a obesidade como uma condição na qual o cérebro envia constantemente sinais de que o corpo não tem combustível, gordura ou energia suficientes, levando a pessoa a comer mais. Esse é o "ponto do suficiente" (enough point) que fica desregulado.

"Nunca pediríamos a um paciente com diabetes que se concentrasse muito para normalizar o açúcar no sangue", disse Jastreboff ao Business Insider. "E, no entanto, por anos, pedimos a nossos pacientes que fizessem exatamente isso pela obesidade."

Os medicamentos GLP-1, como semaglutida (da Novo Nordisk) e tirzepatida (da Eli Lilly), atuam no intestino e no cérebro. Eles imitam hormônios da saciedade, "acalmam o ruído alimentar" (food noise) e redefinem esse "ponto do suficiente", recalibrando os sinais de fome que saíram do alvo em pessoas com obesidade.

O retorno à medicação e a nova liberdade

Após cerca de um ano sem a medicação GLP-1, no início de 2025, Oprah Winfrey recuperou 20 libras (cerca de 9 kg), apesar de manter uma dieta saudável e uma rotina diária de caminhadas, trilhas e exercícios. A experiência a levou a retomar o uso de um GLP-1 injetável.

Ela agora compara o tratamento ao uso de medicamentos para pressão arterial para controlar uma doença hereditária. Winfrey optou por não especificar qual droga utiliza. Em seu livro, ela descreve a liberdade encontrada: a medicação "abriu a abertura para aventura, possibilidade e novas experiências", permitindo-lhe viver sem a ansiedade constante em torno da comida.

"Comer menos e se mover mais não é um tratamento eficaz para a obesidade", afirma Jastreboff. "Isso é como pedir a alguém que prenda a respiração pelo resto da vida... Não é uma maneira de tratar a biologia de uma doença complexa."

Um novo capítulo na medicina da obesidade

O livro e a jornada de Winfrey simbolizam uma mudança significativa na compreensão pública e médica da obesidade. Termos como "ruído alimentar" (food noise) surgiram recentemente, à medida que a ciência avança no entendimento dos mecanismos cerebrais da doença.

Para Winfrey, "enough" também significa chega de culpa, vergonha e mal-entendidos sobre uma condição influenciada por genética, ambiente, alimentação e estilo de vida. A apresentadora encerra o livro afirmando que a medicação a liberou da energia gastas na angústia sobre o peso, permitindo-lhe "contemplar tudo o que é novo e possível para si mesma".