A startup de telemedicina Medvi, que faturou US$ 401 milhões em 2023 e projeta vendas de US$ 1,8 bilhão para este ano, está no centro de investigações por práticas de marketing enganoso envolvendo perfis falsos de médicos criados por inteligência artificial. A empresa, fundada por Matthew Gallagher e que possui apenas dois funcionários, utiliza uma rede de afiliados para impulsionar suas vendas de medicamentos para emagrecimento e supostos produtos para desempenho sexual masculino.
Uma análise da biblioteca de anúncios do Meta revelou que, até segunda-feira (data da publicação da reportagem original), pelo menos seis perfis que se passavam por médicos promoviam os produtos da Medvi. Um desses perfis, "Dr. Matthew Anderson MD", listava um número de telefone de Angola e aparentemente pertencia anteriormente a um músico gospel. Outro, "Dr. Spencer Langford MD", apresentava posts antigos e informações de contato correspondentes a uma loja de roupas na República do Congo.
Resposta da empresa e queda nos anúncios
Matthew Gallagher, fundador da Medvi, afirmou ao Business Insider que a empresa tem uma política clara de exigir divulgação sobre qualquer ator ou representação de IA de um médico, ou de não usá-los. "Se encontrarmos um afiliado fazendo isso, trabalhamos para retirar esses anúncios", disse Gallagher, referindo-se à Comissão Federal de Comércio (FTC) dos EUA. Nenhum dos perfis mencionados na reportagem incluía divulgações proeminentes quando analisados.
Após o Business Insider chamar a atenção de Gallagher para perfis com sinais de uso de IA, o número de campanhas ativas de anúncios vinculadas à Medvi no Meta caiu de mais de 5.000 na sexta-feira para aproximadamente 2.800 na segunda-feira. Um dos perfis de marketing, "Wade Frazer MD", removeu a designação "MD" após o questionamento da reportagem.
Investigações e ações regulatórias
A Medvi foi uma das seis empresas de telemedicina citadas em um pedido de investigação enviado à FTC em setembro pela Liga Nacional de Consumidores (NCL) e outras organizações. Nancy Glick, diretora da NCL, afirmou que o uso de termos como "confiado por especialistas" e "aprovado por médicos" no site da Medvi confunde os consumidores sobre a segurança dos medicamentos manipulados que vende. "O que a Medvi está fazendo viola a Lei da FTC", disse Glick.
Em fevereiro, o FDA (agência reguladora de alimentos e medicamentos dos EUA) enviou uma carta de advertência afirmando que representações no site medvi.io eram "falsas ou enganosas". Gallagher respondeu que o site em questão era operado por um afiliado não autorizado, que já o derrubou e respondeu à agência. O site oficial da empresa é medvi.org.
A Medvi também foi processada pelo menos três vezes nos últimos 11 meses por alegações de violação de leis anti-spam.Uso intensivo de IA e contexto do setor
Segundo reportagem do New York Times, Gallagher investiu US$ 20.000 em seu primeiro mês de marketing e em software de IA, incluindo ChatGPT, Claude e Grok, para construir a empresa, conversar com clientes e preencher seu site com textos e imagens. O site da Medvi alerta que "certos materiais" são gerados ou aprimorados por IA e isenta a empresa de qualquer responsabilidade pela "precisão, integridade ou confiabilidade" desse conteúdo.
O caso da Medvi surge em um momento de crescimento explosivo da telemedicina, impulsionado pela pandemia de COVID-19 e pela demanda por medicamentos para perda de peso da classe GLP-1. No entanto, outras empresas do setor enfrentaram problemas: a startup de saúde mental Cerebral pagou milhões para resolver uma investigação federal em 2024, e o fundador da Done, empresa focada em Adderall, foi considerado culpado por conspiração de fraude em saúde no outono passado.
Para Nancy Glick, da NCL, muitas empresas de telemedicina estão comercializando ilegalmente. "Eles realmente precisariam de um exército apenas para conseguir encontrar esses infratores", concluiu.