O ressurgimento de políticas tarifárias agressivas sob o governo do presidente Donald Trump reacendeu um debate histórico sobre protecionismo comercial nos Estados Unidos. A estratégia, que tem sido central no segundo mandato de Trump, encontra paralelos diretos nas medidas implementadas pelo presidente William McKinley no final do século XIX, período que ficou conhecido como a Era Dourada (Gilded Age).
Assim como Trump creditou a McKinley a criação de uma "nação muito rica" através do sistema de tarifas, a atual administração busca remodelar o comércio global com uma agenda expansiva e frequentemente imprevisível. Nos últimos meses, Trump anunciou as tarifas do "Dia da Libertação" e ameaçou oito nações europeias com uma nova tarifa de 10%, posteriormente suspensa.
O modelo McKinley e suas consequências
Em 1890, como presidente do Comitê de Meios e Modos da Câmara, William McKinley elaborou a Lei Tarifária de 1890, que elevou as tarifas protetoras para mais de 1.500 produtos em quase 50%. O objetivo declarado era proteger os salários dos trabalhadores americanos da concorrência com mão de obra mais barata no exterior e estimular a manufatura doméstica.
"Isto foi o protecionismo em seu ápice", afirmou William K. Bolt, professor de história da Universidade Francis Marion, à Business Insider. "E houve uma reação política significativa contra isso." A medida, no entanto, transferiu o custo para o consumidor comum. "Os consumidores tiveram que pagar um preço mais alto pelo bem manufaturado que desejavam", explicou Bolt.
Impacto social na Era Dourada
O período das tarifas de McKinley coincidiu com uma disparidade econômica extrema. Enquanto a elite industrial, incluindo famílias como os Rockefeller e Vanderbilt, acumulava riquezas comparáveis a uma aristocracia europeia, a maioria da população enfrentava condições severas.
De acordo com um relatório de 1892 do Comitê de Finanças do Senado, a renda familiar média anual era de cerca de US$ 500 (equivalente a aproximadamente US$ 18.000 hoje), mas as famílias do 1% mais rico detinham mais da metade da riqueza do país. Nas cidades, famílias pobres viviam em cortiços superlotados, onde até 12 adultos dividiam quartos de 4 metros de largura, com alta mortalidade infantil.
O fotógrafo Jacob Riis documentou essas condições em seu livro "How The Other Half Lives". Uma família média gastava quase 60% de sua renda anual com alimentação e aluguel, enquanto trabalhadores, incluindo crianças, frequentemente laboravam seis dias por semana em jornadas de 10 horas.
Reação política e mudança de curso
A reação popular às tarifas foi rápida e decisiva. Nas eleições de meio de mandato de 1890, o Partido Republicano de McKinley perdeu o controle do Congresso, com o próprio representante de Ohio sendo derrotado. O partido perdeu 93 cadeiras na Câmara dos Representantes.
A instabilidade econômica que se seguiu, incluindo o Pânico de 1893 – quando o desemprego atingiu 17% –, levou os Democratas a reduzirem algumas tarifas com a Lei Wilson-Gorman de 1894. Curiosamente, quando McKinley assumiu a presidência em 1897, sua visão sobre comércio havia evoluído. Ele apoiou a Lei Tarifária Dingley, que manteve tarifas altas (média de 49%) mas concedeu ao presidente poder para negociar reduções de até 20%, adotando uma abordagem mais recíproca.
"Uma política de boa vontade e relações comerciais amigáveis evitará retaliações", declarou McKinley, sinalizando uma mudança significativa em relação ao seu protecionismo inicial no Congresso.
Contexto atual e lições históricas
Assim como no século XIX, as tarifas modernas funcionam como uma ferramenta de política externa e econômica. No governo McKinley, as tarifas eram a principal fonte de receita federal antes da criação do imposto de renda em 1913. Hoje, Trump as utiliza como alavanca em negociações geopolíticas, como evidenciado pelo interesse renovado na compra da Groenlândia e pelas ameaças a aliados europeus.
O período também viu o fortalecimento do movimento trabalhista, com greves como a de Pullman em 1894 – que resultou na criação do Dia do Trabalho – e o Massacre de Lattimer em 1897, onde 19 grevistas foram mortos. A filiação sindical saltou de menos de 500.000 para mais de dois milhões de trabalhadores entre 1897 e 1904.
A Guerra Hispano-Americana de 1898, um marco do mandato de McKinley, marcou a transição dos EUA de uma postura isolacionista para uma potência imperial global, influenciando também a política comercial doméstica.
Legado e reflexão
William McKinley foi assassinado em 1901 por Leon Czolgosz, um trabalhador e anarquista. Seu sucessor, Theodore Roosevelt, implementou reformas progressistas que aliviaram as tensões da Era Dourada. O legado tarifário de McKinley, no entanto, permanece como um estudo de caso sobre os custos e benefícios do protecionismo.
"É um grande 'e se' na política americana", ponderou o professor Bolt. "Se McKinley não tivesse sido assassinado, [nós teríamos] começado a nos mover em direção ao livre comércio muito mais cedo do que fizemos?"
À medida que a administração Trump avança com sua agenda tarifária, as lições do passado sugerem que, embora políticas protecionistas possam visar objetivos econômicos nacionais, seus impactos finais são frequentemente sentidos no bolso do consumidor e refletidos nas urnas.