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Imagine que, da próxima vez que você entrar em um Uber, o carro não está apenas te levando ao destino — ele está aprendendo cada detalhe do caminho, cada pedestre distraído, cada placa encoberta por árvores. E não para por aí: a empresa quer que milhões de motoristas comuns virem uma gigantesca rede de sensores vivos para alimentar a inteligência artificial dos carros autônomos.

O plano foi revelado pelo próprio chefe de tecnologia da Uber, Praveen Neppalli Naga, em um evento em São Francisco na última quinta-feira. E a notícia é de tirar o fôlego para quem acompanha o futuro dos transportes.

O "exército de dados" que a Uber quer construir

Atualmente, a Uber já possui um programa chamado AV Labs, que usa uma frota dedicada de carros equipados com sensores caríssimos. Mas a ambição é muito maior. A empresa quer equipar os carros de seus motoristas parceiros — são milhões ao redor do globo — com kits de sensores para coletar dados do mundo real.

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"Essa é a direção para a qual queremos ir eventualmente", revelou Naga. "Mas primeiro precisamos entender os kits de sensores e como eles funcionam. Há algumas regulamentações — precisamos ter certeza de que cada estado tem clareza sobre o que os sensores significam e o que significa compartilhá-los."

O raciocínio por trás do plano é simples e devastador: o gargalo para o desenvolvimento de carros autônomos não é mais a tecnologia, e sim os dados. Empresas como Waymo precisam rodar milhares de quilômetros para capturar situações raras no trânsito — uma criança atravessando fora da faixa, um acidente em um cruzamento específico.

O "gargalo" que vale bilhões

"O gargalo são os dados. Empresas como Waymo precisam sair por aí coletando dados, coletando diferentes cenários", explicou Naga. "Você pode dizer: em São Francisco, 'Neste cruzamento da escola, quero alguns dados neste horário do dia para treinar meus modelos'. O problema para todas essas empresas é o acesso a esses dados, porque elas não têm capital para implantar os carros e sair coletando todas essas informações."

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Se mesmo uma fração dos milhões de motoristas da Uber tiverem seus carros equipados, a escala de dados que a empresa poderia oferecer seria incomparavelmente maior do que qualquer montadora de veículos autônomos conseguiria construir sozinha.

A Uber já tem parcerias com 25 empresas de veículos autônomos, incluindo a Wayve, que opera em Londres. A empresa está construindo o que chama de "nuvem de AV": uma biblioteca de dados de sensores etiquetados que empresas parceiras podem consultar e usar para treinar seus modelos.

Democratização ou novo monopólio?

Naga afirma que o objetivo não é lucrar diretamente com os dados. "Nosso objetivo não é ganhar dinheiro com esses dados. Queremos democratizá-los", disse o CTO. Mas, dado o valor comercial óbvio do que a Uber está construindo, essa posição pode não durar muito.

A empresa já fez investimentos em ações em vários players de veículos autônomos, e sua capacidade de oferecer dados de treinamento proprietários em escala pode dar a ela uma alavancagem significativa sobre um setor que hoje depende do marketplace de corridas da Uber para alcançar clientes.

Para quem lembra que a Uber abandonou seus próprios planos de construir carros autônomos anos atrás — uma decisão que o cofundador Travis Kalanick chamou publicamente de "grande erro" —, essa nova estratégia parece uma jogada de mestre. Em vez de competir para construir o carro, a Uber quer se tornar a camada de dados essencial para todos eles.

O futuro dos carros autônomos pode não depender de quem constrói o melhor veículo, mas de quem controla o maior banco de dados do mundo real. E a Uber, com seus milhões de motoristas, está na pole position para isso.