Imagine um terreno do tamanho de **250 campos de futebol** sendo transformado em um gigante digital. Agora, imagine que esse gigante vai consumir energia suficiente para abastecer uma cidade inteira. Parece ficção científica? Não. É o que está prestes a acontecer em Saline, Michigan, a 80 quilômetros de Detroit.
O maior investimento da história de Michigan
O desenvolvedor Related Digital, com apoio dos gigantes financeiros Blackstone e PIMCO, acabou de garantir os US$ 16 bilhões necessários para erguer o que promete ser um dos maiores data centers dos Estados Unidos. O objetivo? Alimentar o negócio de inteligência artificial da Oracle, que a empresa projeta gerar US$ 90 bilhões em receita até 2027.
Para se ter uma ideia da escala: a capacidade do campus será de mais de 1 gigawatt. Enquanto a maioria dos data centers opera entre 100 e 300 megawatts, este aqui vai operar no mínimo três vezes mais. A governadora Gretchen Whitmer já chamou o projeto de "o maior investimento da história do Michigan".
Parte de um plano bilionário para dominar a IA
Este não é um projeto isolado. O data center de Saline é uma peça-chave do Stargate, uma iniciativa de US$ 500 bilhões liderada por Oracle, OpenAI e SoftBank. O objetivo é construir uma infraestrutura de IA capaz de garantir a supremacia americana na corrida tecnológica global. É um plano ambicioso que promete reindustrializar a economia do país e gerar milhares de empregos.
Mas, como em toda grande transformação, há um lado humano que não pode ser ignorado.
O grito de quem não quer o "progresso" no quintal
Enquanto os executivos celebram os investimentos, os moradores de Saline estão nas ruas. Em dezembro, protestos tomaram a cidade. A principal preocupação? O impacto devastador que um consumo energético desse porte pode ter na rede elétrica local e o risco de poluição para a comunidade.
"Se magicamente isso sumisse, eu ficaria muito feliz. Eu poderia voltar para minha vida tranquila e não precisaria ficar aqui na esquina gritando que não quero isso aqui", desabafou a moradora Tammie Bruneau à Michigan Public Radio.
A revolta não é isolada. Nos Estados Unidos, a corrida das big techs por capacidade de processamento está se concentrando justamente na América rural. Uma investigação do Business Insider revelou que, em 2024, já existiam 1.240 data centers em operação ou planejados no país — um salto absurdo em relação aos 311 que existiam em 2010. E uma fatia enorme desse bolo está sendo construída no Meio-Oeste.
Promessas que não acalmam os ânimos
Para tentar conter a crise de imagem, os desenvolvedores do projeto em Saline prometeram usar um "sistema de resfriamento de circuito fechado" para proteger os recursos hídricos de Michigan. Em março, líderes de tecnologia também se comprometeram, em uma visita à Casa Branca, a arcar com uma parcela maior dos custos de energia dos data centers.
Mas, para quem vive no local, essas garantias soam vazias. O dilema está posto: de um lado, um avanço tecnológico que promete bilhões em receita e empregos; do outro, comunidades inteiras que temem perder sua qualidade de vida, seu sossego e seus recursos naturais. A pergunta que fica é: até onde o progresso pode ir sem atropelar quem está no caminho?