Acordo Mercosul-UE elevaria PIB brasileiro em US$ 9,3 bilhões até 2040, aponta estudo do Ipea
Pesquisa prevê ganhos concentrados no agronegócio e impacto positivo na indústria de calçados, com aumento expressivo das exportações para o bloco europeu.
O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) traria um aumento de 0,46% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil até 2040, o equivalente a US$ 9,3 bilhões a preços constantes de 2023. A conclusão é de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que projeta ganhos de produção principalmente no agronegócio e em setores industriais específicos, como calçados, com uma expansão significativa do comércio bilateral.
Entre os signatários do acordo, o Brasil teria o maior ganho relativo de PIB, superior ao da União Europeia (0,06%) e ao dos demais países do Mercosul (0,2%). Em valores absolutos, o ganho brasileiro seria quase equivalente ao da UE, apesar da economia do bloco europeu ser consideravelmente maior.
Agronegócio como principal beneficiário
O estudo "Avaliação dos impactos do acordo de livre comércio Mercosul-UE", realizado por pesquisadores da Diretoria de Estudos Internacionais (Dinte) do Ipea, estima que o agronegócio teria um aumento de produção de 2% em um horizonte de 16 anos, o que representa cerca de US$ 11 bilhões. Quase três quartos desse ganho estariam concentrados em quatro setores: carnes de suínos e aves; outros produtos alimentares (incluindo pescado); óleos e gorduras vegetais; e pecuária (gado em pé).
Apenas o setor de carnes de suíno e aves se beneficiaria diretamente com o aumento de cotas de exportação. Para a carne de frango, o acordo cria um contingente tarifário adicional de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa para o Mercosul, com implantação gradual em seis anos. Para a carne suína, é estabelecida pela primeira vez uma cota preferencial específica de 25 mil toneladas anuais para o bloco, com tarifa reduzida.
Impacto diversificado na indústria
Na indústria de transformação, a produção total teria uma variação levemente positiva, com ganho da ordem de US$ 500 milhões. Quedas em setores como veículos, metais ferrosos e têxteis seriam compensadas por ganhos em outros, como calçados, celulose e papel, e produtos de madeira.
O segmento de calçados e artefatos de couro teria o maior impacto positivo na indústria, com previsão de aumento de 3,2% na produção e de mais de 62% nas exportações para a UE em 15 anos. "O acordo comercial tende a elevar a inserção e competitividade dos calçados brasileiros no mercado europeu", avaliou Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).
Mudanças no fluxo comercial
A análise do Ipea indica que o acordo geraria tanto criação quanto desvio de comércio. As exportações brasileiras para a UE cresceriam 22,6% (US$ 10,2 bilhões), enquanto haveria redução nas vendas para os demais países do Mercosul (-3,3%) e para o resto do mundo (-0,5%).
Do lado das importações, a entrada de produtos da União Europeia no Brasil aumentaria 72%, com um nítido efeito de desvio de comércio em prejuício principalmente do resto do mundo, cujas vendas ao país teriam redução de 11%.
O estudo completo do Ipea está disponível para consulta pública. As projeções consideram a implementação gradual das medidas tarifárias e de cotas previstas no acordo, cuja ratificação definitiva pelos parlamentos dos países envolvidos ainda está pendente.
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