Uma crise no mercado de gás natural pode estar se formando enquanto o mundo observa a guerra no Irã, alertou uma analista sênior do Goldman Sachs. O risco está centrado no Catar, responsável por cerca de um quinto do gás natural liquefeito (GNL) global, cuja principal instalação de produção foi danificada por ataques recentes.
Samantha Dart, co-chefe de pesquisa de commodities globais do Goldman Sachs, afirmou em um podcast do banco que há um risco de o processo se tornar "muito doloroso" se as interrupções se prolongarem. O gás natural é vital para a geração de eletricidade, processos industriais e aquecimento em todo o mundo.
Janela crítica para reposição de estoques
A principal preocupação, segundo a analista, é a natureza sazonal do mercado. Países dependem do acúmulo de estoques entre abril e outubro para atender à demanda de pico no inverno do hemisfério norte. "Qualquer impacto que isso teve nos estoques hoje, temos que compensá-lo completamente até o final de outubro", disse Dart no podcast gravado na segunda-feira.
A interrupção no fornecimento é significativa. A infraestrutura de GNL do Catar foi duramente atingida, e a QatarEnergy estima que os reparos possam levar de três a cinco anos para restaurar totalmente a capacidade. "O que eles estão realmente dizendo é que essas duas linhas de liquefação foram tão danificadas que precisamos recomeçar. Precisamos reconstruí-las do zero", explicou Dart.
Pressão sobre os preços e falta de capacidade ociosa
Os preços do gás natural já subiram entre 50% e 70%, mas Dart esperava uma valorização maior. Até agora, os preços mais altos incentivaram apenas uma mudança limitada para alternativas como o carvão, e não os cortes mais profundos na demanda necessários para reequilibrar o mercado.
Um alívio temporário veio da China, que, após um inverno ameno, redirecionou seu excedente de gás para os mercados globais, especialmente para a Europa. No entanto, à medida que esse alívio desaparece, o mercado terá que lidar com as restrições subjacentes. O sistema global não tem folga, e os Estados Unidos – o maior exportador mundial de GNL – não têm capacidade ociosa para preencher a lacuna rapidamente.
Cenários futuros: de alívio a nova alta drástica
Se o conflito for resolvido em breve, os preços podem recuar. Contudo, se as interrupções se arrastarem, o Goldman Sachs vê potencial para os preços do gás subirem mais de 50% a 100% em relação aos níveis atuais. Esse salto ocorreria à medida que os mercados fossem forçados a racionar a demanda de forma mais agressiva.
A análise destaca a vulnerabilidade do mercado global de energia a choques geopolíticos concentrados em produtores-chave, com implicações diretas para custos industriais e contas de energia de consumidores em todo o mundo nos próximos meses.