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O governo brasileiro mantém uma posição de apoio à ditadura teocrática do Irã, mesmo diante da violenta repressão a protestos internos que pode ter deixado milhares de mortos. A postura, criticada internacionalmente, é motivada por afinidades ideológicas históricas e pelo temor de que a queda de regimes como o iraniano e o venezuelano provoque uma forte queda no preço internacional do petróleo, com graves consequências para a economia e as contas públicas do Brasil.

Desde 28 de dezembro, a "guarda revolucionária" iraniana recebeu ordens de atirar para matar manifestantes que protestavam contra a situação econômica e a inflação. O regime também cortou a internet para esconder a carnificina. Dados oficiais falam em cerca de 700 mortos, enquanto a ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega, estima mais de 3.000 mortes. Algumas fontes chegam a apontar mais de 20 mil assassinatos e 30 mil prisões.

Afinidade ideológica e vexames diplomáticos

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A principal explicação para o apoio brasileiro está nas afinidades ideológicas e no antiamericanismo que se consolidaram no Itamaraty desde o primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sob influência do assessor para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, o Brasil já se expôs a situações vexatórias.

Em 30 de julho de 2024, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) compareceu à posse do presidente iraniano Masoud Pezeshkian, sentando-se a poucos metros do líder do Hamas, Ismail Haniyeh. Horas depois, Haniyeh foi morto em um ataque israelense. Já em 18 de julho, em Washington, Celso Amorim equiparou o tratamento dado às mulheres no Irã à pena de morte em alguns estados americanos, sendo duramente criticado pelo democrata Dan Baer, que qualificou a comparação como "moralmente não respeitável".

Diante da recente repressão, o Itamaraty emitiu uma nota considerada tímida, lamentando as mortes e afirmando que "cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país". Na quarta-feira, em conversa com o presidente russo Vladimir Putin, Lula defendeu a soberania do Irã e da Venezuela.

O risco econômico do petróleo barato

Para além da ideologia, há um cálculo econômico por trás da posição brasileira. A queda das ditaduras no Irã e na Venezuela, seguida do fim das sanções internacionais, faria ambos os países – detentores da primeira e terceira maiores reservas de petróleo do mundo – inundarem o mercado com nova oferta. Analistas preveem que isso poderia derrubar o preço do barril para menos de US$ 45.

Uma queda acentuada teria um "efeito devastador" nas contas públicas brasileiras. Um cálculo preliminar indica que uma redução do barril dos atuais US$ 61 para cerca de US$ 50 poderia reduzir a arrecadação tributária federal em mais de R$ 16 bilhões. Além dos impostos sobre combustíveis, seriam afetados os dividendos pagos pela Petrobras à União – projetados em R$ 12 bilhões para 2025 – e os royalties pagos por todas as empresas do setor, que são calculados com base no preço do petróleo.

Impacto na exploração nacional e contexto geopolítico

A demora na exploração de novas reservas nacionais, como as da Foz do Amazonas, agrava a vulnerabilidade do Brasil. Os primeiros pedidos da Petrobras para pesquisar na região, com reservas estimadas em 25 bilhões de barris, datam de 2014 e só recentemente foram autorizados pelo Ibama. Enquanto isso, empresas internacionais se estabeleceram como produtoras relevantes na Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

Um preço do barril abaixo de US$ 45 tornaria proibitiva a exploração em águas profundas, como no pré-sal, e inviabilizaria o desenvolvimento de áreas que demandam grande infraestrutura. Internacionalmente, o presidente americano Donald Trump ameaçou impor tarifas de 25% a países que insistirem no comércio com o Irã, visando sufocar a economia do regime. O Brasil, no entanto, mantém uma parceria comercial modesta com o país, que somou apenas US$ 3 bilhões em 2023, contra um fluxo comercial total brasileiro de US$ 629 bilhões.

O governo brasileiro, que busca novas receitas para cobrir uma renúncia fiscal de R$ 15,5 bilhões com a isenção de IR para assalariados, teme o impacto de uma queda brusca no preço do petróleo. A persistência das ditaduras aliadas, portanto, é vista como uma forma de manter a cotação do barril estável, em torno de US$ 60, protegendo os cofres públicos de um choque de arrecadação.