A guerra na Ucrânia já fez ao menos 53 vítimas brasileiras desde o início do conflito contra a Rússia, em fevereiro de 2022. Desse total, 30 brasileiros morreram e 23 seguem desaparecidos, segundo apuração do Portal iG. Os números oficiais do Itamaraty, no entanto, são diferentes: 17 mortes confirmadas e 41 desaparecidos.
As famílias enfrentam um luto marcado pela falta de confirmações oficiais, informações desencontradas e a ausência de rituais fúnebres. Além da dor, muitas lidam com dificuldades financeiras, já que as promessas de salários e indenizações feitas durante o recrutamento frequentemente não são cumpridas.
Recrutamento por promessas e realidade no front
O aliciamento de brasileiros ocorre principalmente pelas redes sociais, com promessas de salários elevados e a chance de viver um "sonho" militar. Na prática, os relatos das famílias e de combatentes que retornaram pintam um cenário diferente. Muitos só recebiam salário quando enviados ao front, pressionando-os a aceitar missões de alto risco. O treinamento, descrito como básico e insuficiente, pode durar de duas semanas a três meses.
“Ele recebeu treinamentos, mas eram muito básicos, muito aquém do que é necessário para enfrentar uma guerra desse nível”, relata Gustavo, irmão de Gabriel Pereira, uma das vítimas. “Além disso, não cumpriram com o salário. Na propaganda, dizem que os soldados vão receber, mas, na prática, o pagamento só ocorre pelos dias e horas em que o combatente está na linha de frente.”
Condições precárias e desaparecimentos estratégicos
Os combatentes relatam falta de equipamentos adequados, obrigando-os a comprar coletes e capacetes por conta própria. Em algumas missões, houve denúncias de falta de comida e água. Jackson Aurélio Lourenço do Rosário, de Cáceres (MT), relatou à família, dias antes de morrer, que estava sem suprimentos e precisou beber a própria urina.
Um padrão preocupante apontado por familiares é a manutenção do status de "desaparecido" para soldados cuja morte é conhecida informalmente. Isso impediria o pagamento do salário e de uma indenização por morte à família. “Eles não assumem a morte. E, enquanto ele é considerado desaparecido, não há pagamento do salário para a família nem do seguro. Mas o repasse [do governo ucraniano para a brigada] continua sendo feito”, afirma Gustavo, irmão de Gabriel Pereira.
O luto desautorizado das famílias no Brasil
Sem corpos para velar e com a dor minimizada por comentários nas redes sociais, as famílias enfrentam um "luto desautorizado", conforme explica a psicanalista Christina Tarabay. “Há uma reverberação constante de perguntas como ‘Por que eu não fiz algo?’ ou ‘Por que deixei ele ir?’, o que gera uma culpa social que paralisa e afasta essas pessoas do apoio coletivo”, diz.
Nos casos de desaparecimento, instala-se o que Tarabay define como “morte invisível”. A ausência de uma confirmação concreta impede a elaboração plena da perda, mantendo as famílias em um estado de espera permanente e sofrimento simbólico.
Indenização milionária, mas de difícil acesso
O contrato assinado pelos combatentes prevê uma indenização de 15 milhões de hryvnias (cerca de R$ 1,8 milhão) em caso de morte. No entanto, as famílias afirmam que para resgatá-la é necessário ir até a Ucrânia. Do valor total, apenas 20% são pagos de imediato; os 80% restantes são parcelados em 40 meses. Para muitas, a burocracia e os custos tornam o processo inviável.
Versões contraditórias sobre as condições
Enquanto familiares e alguns ex-combatentes denunciam más condições, um brasileiro que ainda atua no conflito, identificado apenas como Guilherme, oferece um relato diferente. Ele afirma que integra uma tropa de elite, que o salário é pago mesmo durante o treinamento (entre R$ 5 mil e R$ 6 mil) e que alimentação e logística são custeadas pelo batalhão.
Carlos, outro brasileiro que retornou, confirma que era possível recusar missões. Ele relata que recebia um soldo básico de 25 mil UAH (R$ 3.120) e um bônus de 100 mil UAH (R$ 12.483) por missão, e que não houve falta de suprimentos durante seu período no front.
Futuro incerto e busca por respostas
Com a guerra sem previsão de fim, o número de vítimas brasileiras pode aumentar. A Embaixada da Ucrânia no Brasil não respondeu aos questionamentos do Portal iG sobre os procedimentos em casos de óbito e desaparecimento de estrangeiros. Enquanto isso, as famílias seguem na busca por informações, pelo reconhecimento de sua dor e por justiça quanto aos acordos financeiros não honrados.