O presidente-executivo da BlackRock, Larry Fink, abriu o Fórum Econômico Mundial nesta terça-feira (14) com um alerta sobre os riscos da inteligência artificial (IA) replicar a desigualdade gerada pelo capitalismo. Em discurso em Davos, na Suíça, o chefe da maior gestora de ativos do mundo afirmou que os ganhos iniciais da nova tecnologia estão fluindo para uma parcela restrita da sociedade.
Fink, que foi nomeado co-presidente interino do Fórum em agosto de 2025, substituindo o fundador Klaus Schwab, criticou a forma como a riqueza criada nas últimas décadas não se traduziu em prosperidade compartilhada. "Nas economias avançadas, essa riqueza foi acumulada por uma parcela muito mais estreita de pessoas do que qualquer sociedade saudável pode sustentar", disse.
Alerta sobre o impacto da IA no trabalho
O executivo fez um paralelo direto entre os efeitos da globalização e os potenciais impactos da IA. "Os ganhos iniciais estão fluindo para os proprietários de modelos, proprietários de dados e proprietários de infraestrutura", afirmou Fink. "A questão em aberto é: o que acontece com todos os outros? Se a IA fizer com os trabalhadores de colarinho branco o que a globalização fez com os de colarinho azul, precisamos confrontar isso hoje, diretamente."
Ele pediu aos participantes do encontro anual que repensem como a prosperidade é definida e criem um "plano crível" para a participação ampla nos ganhos que a IA pode entregar. "Este será o teste. O capitalismo pode evoluir para transformar mais pessoas em proprietárias do crescimento, em vez de espectadoras assistindo acontecer", declarou.
Desigualdade em números e crise de confiança
Os dados de desigualdade global reforçam a crítica de Fink. De acordo com o Relatório de Desigualdade Mundial 2026, divulgado em dezembro do ano passado com base em dados compilados por 200 pesquisadores, os 10% mais ricos do mundo detêm aproximadamente 75% da riqueza global. A metade mais pobre da população possui apenas cerca de 2%.
Em seu discurso, Fink também reconheceu que o Fórum Econômico Mundial perdeu confiança e "parece fora de sintonia com o momento". "Davos é uma reunião de elite tentando moldar um mundo que pertence a todos", disse, defendendo que o fórum seja mais transparente e preciso sobre o significado do sucesso econômico, especialmente para quem não se sente representado.
Redefinição de prosperidade e histórico de posições
Para Fink, a prosperidade não pode ser medida apenas por indicadores tradicionais. "A prosperidade não é apenas o crescimento agregado. Não é apenas o PIB. Não pode ser medida pelo PIB ou pela capitalização de mercado das empresas. Tem que ser julgada pelas muitas pessoas que a veem, que podem tocá-la, senti-la e construir seu próprio futuro sobre ela", argumentou.
Esta não é a primeira vez que o CEO da BlackRock defende uma evolução do capitalismo. Em sua carta anual aos acionistas de 2022, ele afirmou que o crescimento do capitalismo de partes interessadas – a ideia de que as empresas devem priorizar interesses além dos acionistas – era uma evolução natural de como o capitalismo pode funcionar melhor para construir uma economia forte.
A BlackRock, que administra cerca de US$ 14 trilhões em ativos, tem sido uma das vozes mais altas em apoio ao investimento ambiental, social e de governança (ESG), com Fink frequentemente destacando as mudanças climáticas e a sustentabilidade em suas cartas anuais.