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Em meio a uma nova rodada de negociações de paz para a Ucrânia, realizadas em Berlim, a comunidade internacional intensifica os apelos para que a China assuma um papel mais ativo para pressionar a Rússia a encerrar a guerra. O ministro do Exterior da Alemanha, Johann Wadephul, pediu diretamente ao governo chinês que use sua influência sobre Moscou durante visita a Pequim. A China, no entanto, mantém uma postura publicamente neutra, sendo acusada pelo Ocidente de sustentar economicamente o esforço de guerra russo.

As conversas em Berlim ocorrem após três dias de negociações infrutíferas na Flórida (EUA) sobre um plano de paz apoiado pelo ex-presidente americano Donald Trump. O plano original, com 28 pontos, foi criticado por alinhar-se excessivamente às demandas russas, exigindo concessões territoriais da Ucrânia e limitando seu ingresso na Otan. Tanto Kiev quanto Moscou demonstraram resistência às versões apresentadas, deixando as negociações em um impasse.

Neutralidade questionada e interesses estratégicos

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“Se existe um país que exerce forte influência sobre a Rússia, esse país é a China”, afirmou Johann Wadephul após se reunir com o chanceler chinês, Wang Yi. Apesar de alegar neutralidade, a China é acusada de apoiar a Rússia através da compra maciça de petróleo e da exportação de materiais de dupla utilização, que podem ter aplicações militares.

“É por isso [comércio com a Rússia] que a China tem muito cuidado para não ser vista como parte das negociações”, analisa a professora Zsuzsa Anna Ferenczy, da Universidade Nacional Dong Hwa, de Taiwan. Ela destaca que Pequim busca projetar uma imagem de neutralidade, especialmente perante o Sul Global, mesmo que essa percepção não seja compartilhada no Ocidente.

Posição oficial e plano de paz vago

A posição oficial chinesa foi reiterada pelo presidente Xi Jinping durante encontro com o presidente francês, Emmanuel Macron. Xi declarou que a China apoia “todos os esforços destinados a alcançar um acordo de paz justo, duradouro e vinculativo que seja aceitável para todas as partes”. Em 2023, o país apresentou um próprio plano de paz, amplamente criticado por sua vagueza e por não condenar explicitamente a invasão russa.

Analistas interpretam o silêncio relativo de Pequim como um cálculo estratégico. “A China está interessada no fim desta guerra, mas num fim que coloque a Rússia numa posição de vantagem e satisfaça o objetivo da Rússia, que é manter o território que conquistou”, afirma Ferenczy. Um acordo nessas bases, segundo ela, serviria aos interesses chineses ao indicar que violações do direito internacional por regimes autoritários podem ficar impunes.

Implicações para Taiwan e a ordem global

O desfecho do conflito na Ucrânia é monitorado de perto por Taiwan e pela China. Pequim reivindica a ilha autônoma como parte de seu território e não descarta o uso da força para reunificá-la. Um acordo de paz que legitime anexações territoriais pela força teria profundas implicações para a segurança de Taiwan e para as normas internacionais.

“A norma dos últimos 70 anos nas relações internacionais é que não se devem fazer alterações territoriais pela força militar”, explica o cientista político Raymond Kuo, do *think tank* Rand. “A grande questão é: essa norma está sendo quebrada?”. Documentos vazados sugerem cooperação militar sino-russa, incluindo o treinamento de um batalhão paraquedista chinês para uma possível ação contra Taiwan.

Aprofundamento da parceria sino-russa

Enquanto a pressão ocidental aumenta, a cooperação entre China e Rússia só se aprofunda. Isolada politicamente, Moscou depende cada vez mais de Pequim para comércio e apoio. Em maio, os dois países emitiram uma declaração conjunta defendendo maior cooperação militar, incluindo exercícios conjuntos e compartilhamento de tecnologia.

Para a China, manter a Rússia como parceira estratégica é crucial. A guerra na Ucrânia exerce pressão sobre os Estados Unidos e a Europa, minando a democracia e a ordem mundial liderada pelo Ocidente, o que beneficia os interesses geopolíticos de Pequim. Apesar das diferentes abordagens dentro da União Europeia, espera-se que o bloco mantenha firme apoio à Ucrânia, visto que a segurança europeia está intrinsecamente ligada ao futuro do país invadido.