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Colunista analisa como pós-verdade simplifica debate sobre Venezuela e EUA

Colunista analisa como pós-verdade simplifica debate sobre Venezuela e EUA

Oscar Filho argumenta que narrativa binária sobre Maduro e Trump ignora complexidade do direito internacional e riscos de intervenções.

Redação
Redação

5 de janeiro de 2026 ·
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Em análise publicada no portal iG, o colunista, apresentador e humorista Oscar Filho discute o conceito de "pós-verdade" no contexto das recentes tensões envolvendo a Venezuela e os Estados Unidos. O texto alerta para o risco de narrativas simplificadas que transformam análises complexas em um teste de lealdade ideológica, colocando de um lado o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e do outro o ex-presidente americano, Donald Trump.

Filho, que é um dos pioneiros do stand-up no Brasil e foi indicado ao Emmy Internacional em 2024, define pós-verdade como um cenário onde "dane-se a verdade", prevalecendo emoções, crenças pessoais e alinhamentos ideológicos. No caso venezuelano, ele identifica um "erro confortável": a ideia de que, diante de um governante autoritário, qualquer ação contra ele se torna automaticamente justa.

O dilema artificial e o apagamento do direito internacional

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O colunista descreve um "dilema artificial" empurrado por essa lógica: ou se condena Maduro ou se critica Trump. Tentar fazer ambos torna a pessoa "suspeita", enquanto a falta de compreensão total leva a ser taxada de "burro ou isentão". Esse mecanismo, segundo ele, "transforma análise em teste de lealdade" e apaga os "tons de cinza" do debate.

Filho sustenta que, além de ser certo condenar o regime de Maduro – marcado por eleições questionadas, repressão e crise humanitária –, é fundamental questionar se isso "autoriza automaticamente uma potência estrangeira a invadir um país soberano". Ele ressalta que, no direito internacional, a soberania é um pilar, não um detalhe técnico.

Precedentes perigosos e a seletividade das ações

Aceitar a lógica de que "se é ditador, pode invadir" abriria um precedente perigoso, alerta o texto. A mesma justificativa poderia ser usada por qualquer potência contra qualquer governo considerado inconveniente. Como exemplos históricos, Filho cita o golpe no Chile em 1973, a invasão do Panamá em 1989 e a intervenção no Iraque em 2003, casos em que justificativas morais foram usadas para legitimar o uso da força.

Outro ponto levantado é a motivação por trás das ações. O colunista argumenta que Trump "não opera a partir de princípios universais, mas de cálculo político interno, demonstração de força e construção de narrativa de poder". Isso, em sua visão, não transforma Maduro em vítima, mas também impede que Trump seja tratado como herói.

As perguntas incômodas e o custo das intervenções

Filho propõe que as perguntas centrais vão além de "Maduro merece cair?". São questões mais incômodas, como "quem decide?", "como essa decisão é tomada?" e "com que legitimidade?". Ele adverte que quando a força vale mais que regras e tratados, o sistema internacional deixa de proteger os fracos para servir aos mais fortes.

O texto também chama a atenção para o custo humano das intervenções. "Intervenções 'salvadoras' quase nunca fortalecem instituições locais e invariavelmente cobram seu preço da população", escreve, lembrando que a América Latina "conhece bem esse roteiro". Decisões internacionais, defende, não podem ser baseadas em "catarse" ou "alívio emocional".

Convivendo com a ambiguidade

Em suas conclusões, Oscar Filho defende que é possível sustentar posições aparentemente contraditórias. "É possível sustentar, ao mesmo tempo, que Maduro governa de forma autoritária, que a Venezuela vive uma tragédia real e que Trump não tem legitimidade para agir como xerife global", afirma.

Ele finaliza destacando que a pós-verdade, por ser um "produto pronto" simples, emocional e binário, funciona perfeitamente para portais de notícias e redes sociais, mas não entrega compreensão ou justiça. "A pós-verdade nos obriga a escolher lados; a realidade nos obriga a pensar", conclui. "E tudo bem não entender completamente: a complexidade é parte da verdade."

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