Execução de informante do PCC terá réus julgados por júri popular em SP
Justiça de São Paulo pronuncia dois acusados pelo assassinato de Roberto Hipólito, o "Zóio de Gato", após sequestro na Dutra.
A Justiça de São Paulo determinou que dois homens acusados de sequestrar, executar e ocultar o cadáver do informante policial Roberto Hipólito Rutkauskas, 29 anos, conhecido como "Zóio de Gato", serão julgados pelo Tribunal do Júri. A decisão de pronúncia, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), foi publicada em 1º de agosto de 2025 e aceita integralmente a denúncia do Ministério Público Estadual (MP-SP).
Os réus são Jefferson Rodrigues Alexandre, 29, apelidado de "Irmão J" e identificado como "Disciplina" do PCC na região, e Alisson Alexandre Borges, 32, conhecido como "TK". Eles são acusados dos crimes de homicídio triplamente qualificado (por motivo torpe, meio cruel e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima), sequestro, ocultação de cadáver e organização criminosa.
Sequestro na rodovia e execução na favela
Roberto Hipólito foi sequestrado na noite de 16 de setembro de 2023, na Rodovia Presidente Dutra, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Ele estava com a esposa e o filho de dois anos em um carro de aplicativo quando foi abordado por homens em um Hyundai Tucson preto. Após uma colisão forçada, Zóio de Gato foi retirado à força do veículo e levado para a Favela da Funerária, no Parque Novo Mundo, zona norte da capital paulista.
No local, foi executado com múltiplos tiros. O corpo da vítima nunca foi localizado. A execução foi filmada e o vídeo circulou em grupos de WhatsApp do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que ordenou o assassinato.
Motivação: desafio à facção e atividade de informante
O assassinato foi a culminação de uma sentença de morte decretada pelo PCC. Treze dias antes, em 3 de setembro, Roberto havia discutido com dois integrantes da facção na porta do Armazém Maya Gastro Bar, em Guarulhos. Durante a discussão, que foi filmada, Zóio de Gato afirmou: "Aqui é contra o Primeiro!", em referência ao PCC. Um dos criminosos respondeu com ameaças de morte.
O vídeo da discussão viralizou entre os membros do PCC e serviu como prova para a liderança da facção. Investigadores apontam, no entanto, que a motivação principal era a atividade de Roberto como "Ganso" – informante policial. Ele vendia informações sobre criminosos para policiais, muitas vezes corruptos – o chamado "outro PCC" –, recebendo pagamentos via PIX e deixando um rastro digital de sua atuação dupla.
Provas e reconhecimento materno selaram acusação
O inquérito foi conduzido pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). A investigação se baseou no rastreamento do veículo usado no sequestro e, principalmente, na análise do vídeo da execução. As imagens permitiram a identificação de Alisson, o "TK", segurando a vítima no chão durante os disparos.
Quando a polícia localizou a mãe de Alisson e mostrou a ela o vídeo, a mulher reconheceu o próprio filho e confirmou: "É o Alisson segurando a vítima". Essa confissão foi fundamental para a captura do réu, que havia fugido para Jacobina, no interior da Bahia, onde foi preso. Alisson, em depoimento extrajudicial, admitiu integrar o PCC e ter participado da "missão" por ordem da facção.
Jefferson, o "Irmão J", foi incriminado pelo depoimento de uma testemunha que o viu descer de um Fiat Fiorino branco – veículo usado para transportar a vítima dentro da favela – e conduzir Roberto, já rendido, para o local da execução.
Defesas tentaram anular provas, mas Justiça as validou
As defesas dos acusados tentaram, sem sucesso, desmontar a acusação. A advogada de Jefferson argumentou que ele não aparece no vídeo da execução e que o reconhecimento fotográfico feito por testemunhas foi nulo. A Defensoria Pública de Alisson alegou que ele apenas cumpriu ordens e tentou afastar as qualificadoras do homicídio.
O Tribunal de Justiça rejeitou todos os argumentos. A decisão de pronúncia considerou que há "indícios suficientes de autoria" e manteve todas as qualificadoras do crime, destacando a "brutalidade fora do comum" do assassinato. A ausência do corpo não impediu a manutenção da acusação de ocultação de cadáver.
Próximos passos: júri popular
Com a pronúncia, Jefferson Rodrigues Alexandre e Alisson Alexandre Borges permanecem presos preventivamente. A Justiça negou pedidos de liberdade, citando a gravidade dos crimes e a necessidade de garantir a ordem pública. O caso agora segue para a fase de julgamento pelo Tribunal do Júri, onde sete cidadãos sorteados decidirão sobre a culpa ou inocência dos réus.
O Ministério Público entende que Alisson não participou do sequestro, apenas da execução, por isso ele responde por homicídio, ocultação de cadáver e organização criminosa. Jefferson é acusado de todos os crimes, incluindo o sequestro.
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