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Executivos de grandes instituições financeiras dos Estados Unidos reagiram com preocupação à proposta do ex-presidente Donald Trump de estabelecer um teto de 10% ao ano para os juros de cartão de crédito. A ideia, anunciada por Trump em sua rede social Truth Social, foi classificada por CEOs como JPMorgan Chase e Citigroup como potencialmente desastrosa para a economia e o acesso ao crédito. Enquanto isso, representantes de empresas de tecnologia financeira, como Klarna e SoFi, manifestaram apoio ou vislumbraram oportunidades de negócio diante de uma possível regulamentação.

O poder para implementar tal limite, no entanto, reside no Congresso americano, não na Presidência. Propostas semelhantes já tramitaram no Capitólio no passado, mas nunca foram aprovadas. Trump argumentou que os consumidores estão sendo "explorados" por taxas que podem chegar a 20% ou 30%.

Grandes bancos temem impacto severo na economia

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Jane Fraser, CEO da Citigroup, foi enfática ao afirmar que a medida "não seria boa para a economia" e que não vê apoio bipartidário no Congresso para sua aprovação. Em entrevista ao CNBC no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Fraser citou um programa de restrição de crédito do ex-presidente Jimmy Carter, em 1980, que teria causado uma forte contração econômica. "Os tetos fazem o oposto do que você pensa que fariam. Eles realmente restringem o acesso ao crédito", afirmou.

Seu principal subordinado, o diretor financeiro de saída do Citi, Mark Mason, reforçou a posição, classificando o teto como algo que a empresa "não apoiaria, nem poderia apoiar" e que teria um "impacto muito negativo na economia".

O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, alertou que a redução das taxas poderia afetar adversamente clientes com baixa pontuação de crédito, limitando seu acesso. Em Davos, Dimon disse que o teto seria um "desastre econômico" e arriscaria retirar o crédito de 80% dos americanos, prejudicando restaurantes, varejistas e empresas de viagem.

Jeremy Barnum, diretor financeiro do JPMorgan, destacou que o negócio de cartões é central para as ofertas de varejo do banco e que, em um cenário de controle de preços, "isso apresentaria um desafio significativo". No quarto trimestre, o volume de vendas em cartões de débito e crédito do banco subiu cerca de 7% em relação ao ano anterior.

Setor aéreo e outros líderes se posicionam

O CEO da Delta Air Lines, Ed Bastian, afirmou que a proposta "revolucionaria toda a indústria de cartão de crédito" e restringiria o acesso ao crédito para consumidores de baixa renda. Bastian disse que a companhia aérea trabalhará de perto com a American Express, sua parceira em cartões co-branded, e que não vê "nenhuma maneira de começar a contemplar como isso [o teto] seria implementado".

O bilionário Bill Ackman, CEO da Pershing Square Capital Management, escreveu no X (antigo Twitter) que a medida é um "erro". Ele argumentou que, sem taxas adequadas para cobrir perdas, os emissores cancelariam cartões para milhões de consumidores, que teriam que recorrer a agiotas. Ackman sugeriu que a melhor forma de reduzir as taxas seria tornar o setor mais competitivo.

O CEO do Bank of America, Brian Moynihan, lembrou que propostas para baixar os tetos de juros trazem consequências não intencionais, como a constrição do crédito. Ele citou que o BofA criou produtos, como empréstimos de curto prazo com taxa fixa e cartões simples com juros mais baixos, para evitar que as pessoas recorram a empréstimos do tipo "payday".

David Solomon, CEO do Goldman Sachs, que recentemente saiu do negócio de cartões, disse não achar a ideia boa, pois "restringiria significativamente o crédito para a maioria dos americanos". Solomon brincou que era "um momento muito bom para sairmos do negócio de cartão de crédito".

Fintechs veem apoio e oportunidade

Em contraste com os grandes bancos, o CEO da Klarna, Sebastian Siemiatkowski, apoiou publicamente o plano de Trump. Em entrevista à CNBC, ele afirmou que "Trump é sábio aqui e está propondo algo que faz muito sentido". Segundo ele, os cartões tradicionais incentivam os consumidores a gastar no crédito e carregar grandes saldos com juros altos, prejudicando especialmente os tomadores de baixa renda. Ele também criticou os programas de recompensa, como milhas e cashback, por beneficiarem majoritariamente consumidores mais ricos.

O CEO da SoFi, Anthony Noto, enxergou uma oportunidade de negócio. Em uma publicação no X, ele escreveu que, se a medida fosse promulgada, "provavelmente veríamos uma contração significativa no crédito ao consumidor da indústria de cartões", pois os emissores não conseguiriam sustentar a lucratividade. "Os consumidores, no entanto, ainda precisarão de acesso ao crédito. Isso cria um grande vazio – um que os empréstimos pessoais da SoFi estão bem posicionados para preencher", completou.

O debate ocorre em um ano eleitoral nos Estados Unidos e coloca em evidência o desafio de equilibrar a proteção ao consumidor contra juros altos e a manutenção do acesso amplo ao crédito. A viabilidade da proposta dependerá de sua recepção no Congresso, onde, segundo as declarações dos executivos, ainda não há indícios de apoio bipartidário suficiente para sua aprovação.